Hoje acordei muito bem-disposto. Não é que isso seja importante para alguém excepto para mim próprio. Mas, por outro lado, acordar como um santinho tem as suas vantagens sociais. Os sorrisos são mais abertos, O bom dia sai mais cantante. Beija-se mais repenicado. Mas, sobretudo, tem-se mais paciência para os disparates. É só vantagens. Vem tudo isto a propósito dos telejornais em prime e non-prime time.
 
Eles existem e resistem com darwiniana resiliência a todos os insecticidas racionais conhecidos. E, como tal, não há a nada a fazer; leva-se com eles em cima e pronto. Isto mesmo. Até quando se está a tomar o nosso descansado café, de preferência, na mesa mais distante da televisão. Acho que até podia ser considerada como uma nova lei universal: a lei da gravitação televisiva. Só que, em vez dos 9,8 metros por segundo, ela
cai sobe nós a uma velocidade que vai dos 240 metros até aos estonteantes 300 000 quilómetros por segundo, consoante a queda se faça com os abanicos auriculares ou com os olhinhos que a terra há-de comer. Não há mesmo nada a fazer. Como tal, este vosso acordado bem-disposto ficou novamente ciente, pela enésima vez, que aquilo que constitui por estes dias a notícia-âncora televisiva é o saber como derrotar um determinado candidato à segunda volta. Não interessa apresentar uma biografia, um perfil posto à consideração de comentadores de vários quadrantes, mostrar o seu percurso político, a sua vida pessoal, académica ou profissional. Não. O que interessa e há-de interessar (escrevo eu) é o saber como é que nos havemos ver livres dessa peste negra bípede, mesmo antes dela ser eleita. É uma postura televisiva perfeitamente isenta. Não tenho dúvidas. Visto que isenção é não tomar partido por nenhum dos lados.
 
E, hoje em dia, em Portugal (realidade que conheço melhor), não tomar partido é ser de esquerda. Que até já nem é partido, é inteiro, porque a direita já não existe. Isto fez-me lembrar uma leitura de há uns bons trinta anos atrás. Nessa obra, o autor dizia mais ou menos o seguinte: «assim como é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reinos dos céus, também é mais fácil encontrar um rissol fresco na estação do Cais do Sodré do que uma universidade onde se discutam as ideias e se estimule esse debate». Não era bem isto, mas a ideia está toda lá. As universidades são hoje autênticas escolas profissionais, locais onde se aprende a combater a rarefacção dos empregos; há muito que perderam o seu lugar de viveiros da contestação, da dialéctica, da inovação do pensamento humano. Não. Limitam-se a produzir objectos formatados para o mundo profissional e para a cultura dominante.
 
Ou, será melhor escrever para a cultura inculta para usar a terminologia do Allan Bloom? Depois, temos isto. Já ninguém quer saber do princípio do contraditório, do debate de opinião, e até os anti-fundamentalistas, os anti-violência, os anti-discriminação, fundamentalizam-se, agridem e discriminam aquela criatura porquanto, dizem eles, há assuntos e pessoas sobre as quais nem vale a pena discutir. Assim, a ardósia limpa do
outrora surge já devidamente preenchida e é sobre ela que vai incidir a notícia. Nada de pensar fora da caixa. Nada de pensar sequer. A criatura não merece pensamentos. Só reacções emocionais. E a pergunta que então se faz já não é do domínio da isenção. A pergunta que se faz já não tem a ver de onde saíram estes profissionais da notícia já preparada. Não. A questão colocada é se o seguinte texto tem de ser modificado: «Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de
não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.», passando a ler-se «Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão, excepto se ele for diferente da do resto do rebanho.» Afinal, não se trata de uma questão de somenos importância, nem de saber onde pára a liberdade de imprensa pela qual tantos deram (e dão) a sua vida, literalmente; também já não interessa onde é que os senhores jornalistas aprenderam a não pensar, máxime, a seleccionar a informação a que acham que os outros devem ter acesso. Não, o que está
em causa é o se se deve modificar, ou pura e simplesmente acabar (a bem desta coerência acéfala) com uma coisa designada de «Declaração Universal dos Direitos Humanos».
 
Tenham um excelente dia!
 
João de Bianchi Villar, 2018