Já não vivemos nos tempos em que a fé religiosa comum, com a sua ordem de valores, dava sentido à existência humana. Hoje, disfrutamos do mundo moderno da ciência e da técnica, com todo o seu progresso e bem-estar, que transmitem um sentido diferente à vida humana. Contudo, continuamos a sentir que esta realidade ainda está longe de resolver os problemas fundamentais que afetam o ser humano, não conseguindo, ainda, responder à questão que colocamos acerca do sentido último do destino da humanidade.
 
Perante esta questão do sentido da nossa existência, preferimos ignorá-la e continuarmos a viver no silêncio desejado. Porém, cada um de nós vive o seu mundo, alegramo-nos, sofremos, alcançamos êxitos e desaires, somos sujeitos a encargos e cuidados. Vamos envelhecendo. No entanto, duma coisa temos a certeza. No fim do processo histórico de cada um está a morte. Naturalmente, não sabemos onde nem quando acontece; e isso angustia-nos e amedronta-nos.
 
Esta angústia e incerteza, que têm como subjacente a pergunta pelo sentido da existência humana, remetem-nos para o fenómeno a que chamamos religião. Mas, o que é a religião? É consensual dizer-se que o comportamento religioso se caracteriza por uma relação explícita com Deus. Mas que tipo de relação é esta? São muitos os pensadores que se debruçaram sobre a questão sem, contudo, a clarificarem. Os positivistas e ateístas encaram o religioso como o desenvolvimento deficiente da humanidade, que será preciso ultrapassar. Além destes, há três explicações do religioso, contraditórias entre si.
 
Espinosa compreende a religião como um afecto de alegria provocado pelo conhecimento de Deus. Significa um racionalismo da concepção religiosa. Uma segunda explicação foi apresentada por Kant. Para ele, a religião reside no querer e no agir moral. De acordo com esta concepção, a verdadeira religião consiste no cumprimento dos nossos deveres morais e não em atos exteriores e formais como o sacrifício, a oração e adoração mística de Deus. Por último, Schleiermacher defende que a religião não depende, genuinamente, nem do conhecimento nem do querer e agir, mas antes afirma que a religião é vivida e experienciada a partir de sentimento, isto é, de um sentimento religioso.
 
Que dizer? Estamos perante visões diferentes do mesmo fenómeno. A religião não pode ser só a parte convencional e institucional das formas religiosas. Tem de ir mais além. O verdadeiro ato religioso consiste na conversão livre do homem para Deus. Este ato deve ser de amor e entrega genuína. Quão longe estamos daquilo que nos dizem e fazem alguns profissionais da religião que cobram bem pelos seus serviços e não se descuidam em receber o dinheiro que fiéis recebem das suas míseras pensões, mas que, religiosamente, domingo após domingo, entregam o dinheiro que entendem necessário para a sua salvação.
A religião, enquanto sistema humano deste tipo, deve ser denunciada e exigir a atitude correta e em concordância com a fé na ação salvífica de Deus. Não será!?