Recordamos hoje, com saudade e nostalgia, o glorioso Grupo Desportivo dos Ferroviários do Entroncamento. Durante décadas foi o embaixador mais aguerrido e brioso que a nossa vila/cidade poderia ter merecido. Hoje é uma memória cada vez mais esbatida no tempo. Quando se evoca o clube desportivo não nos vem à memória apenas o futebol. Houve outras modalidades desportivas. Teve uma poderosa equipa de ténis de mesa, houve patinagem artística e até uma secção de atletismo. Falar do Grupo Desportivo dos Ferroviários do Entroncamento é também evocar outras atividades para além do desporto, nomeadamente, o teatro, as festas e os bailes memoráveis. Hoje quando descemos de automóvel, apressados, a passagem subterrânea de norte para sul já não vislumbramos qualquer suporte para a nossa memória desses tempos. A voragem da construção civil desenfreada, que era uma das imagens do Entroncamento para aí há uns quinze anos atrás, fez eclodir o edifício que era a sede daquela associação ancestral do Entroncamento para dar lugar a mais um prédio de habitação coletiva. Para dar lugar, salvo seja, é sermos complacentes. O que restou foi um esboço assombrado, uma ruína mal amanhada, uma estrutura feia e desencabrestada a lembrar-nos que outrora houve ali febre de cimento que a crise económica e financeira da última década entretanto esfriou. Confesso que é deprimente passar por aquelas bandas. A passagem inferior sob a via férrea, ao suprimir literalmente o perfil da rua almirante Cândido dos Reis, acabando com o flagelo que era a passagem de nível, também descaraterizou, porventura, uma das ruas mais emblemáticas do Entroncamento. O pior viria a seguir com o camartelo a derrubar todo aquele friso de vetustas construções, incluindo a sede dos Ferroviários, para dar lugar ao tal prédio de andares que, qual esqueleto amaldiçoado pelo tempo, nunca mais foi concluído. Um dia destes perguntei ao senhor presidente da Câmara Municipal do Entroncamento se havia em apreciação qualquer solução para aquela ruína assombrada. Respondeu-me que no degelo da crise financeira, a propriedade daquele espaço ficou a pertencer a um banco que se encontra a avaliar a situação para poder tomar decisões. Era bom que se despachasse. O tempo não volta para trás e sabemos que aquele Entroncamento pitoresco não volta mais. Também sabemos que chegou a haver um acordo apalavrado para que a sede dos Ferroviários fosse reinstalada no rés do chão do edifício a construir. Como não há prédio construído, nem há Grupo Desportivo dos Ferroviários e como a obra mudou de mãos, desconhecemos o futuro daquele espaço. Estamos cansados da espera. Fere-nos a alma a memória que se volatizou, fere-nos os olhos aquela estrutura que se fez velha sem chegar a ser nova, com o tijolo cru manchado pelo musgo negro do tempo, com os taipais da crise, com os ratos, as cobras e o lixo acumulado por todos estes anos de abandono. De resto, uma pequena volta pela cidade deixa-nos aziados pela inércia ou pelos adiamentos provocados pela crise. O antigo centro comercial avenida, em tempos a menina dos olhos da nossa jovem cidade, está num estado que o nosso vocabulário me não deixa adjetivar. Já falei um dia destes do ervaçal a sul da estação dos caminhos de ferro. Noutros centros comerciais há boa percentagem de lojas vazias e decrépitas. Na nossa baixa comercial que é a rua Luis Falcão Sommer, ao lado das lojas vivas e por vezes fervilhantes de atividade e de gentes, coexistem espaços abandonados e ruínas que o tempo se vai encarregando de acentuar, à espera de melhores dias, porventura que volte a febre da especulação imobiliária para as varrer de vez para os caixotes da nossa memória. E que dizer daquele outro fantasma, ali ao lado da rotunda da estrada da Meia Via no Casal Melão, a lembrar-nos que há muitos anos houve por ali um espaço de diversão noturna e que, desde também há muitos anos, ali resta um espantalho de asas negras a turvar o ar de quem ali passa, apressado, para outras paragens. E, ainda, e uma vez mais, a nossa Escola Camões e os bairros ferroviários, abandonados, decrépitos, com portas e janelas emparedadas ou com muitos vidros partidos, a lembrar-nos que em tempos ali houve boa gente ferroviária a quem a Companhia disponibilizava uma habitação condigna, e hoje apenas restam os esqueletos esventrados de um tempo irrepetível porque a febre neoliberal, cosmopolita e globalizada impôs outros valores, incompatíveis com a maior parte das boas práticas que adornavam a vida social dos trabalhadores ferroviários. Apetece-me citar uma famosa frase latina, daquelas que aprendi nos meus verdes anos, quando era estudante do ensino secundário. Quo vadis, domine? Quo vadis Entroncamento? Para onde vais Entroncamento, para onde caminhas, quais são as perspetivas de desenvolvimento da nossa cidade e do nosso futuro?