Um dos equívocos mais estranhos sobre o desafiante e fraturante tema dos fenómenos do Entroncamento liga-se ao modo estático e descontextualizado pelo qual muitas pessoas na cidade, que na maioria dos casos me merecem um considerável respeito, se baseiam em preconceitos e insistem em os continuar a ver num registo perfeitamente atávico.
 
Há quem, tendo responsabilidades políticas, sublinhe que o assunto está longe de ser prioritário e que, com tantos problemas que residem na cidade, uns inquilinos mais antigos, outros mais recentes, o caso dos fenómenos é um problema que ainda bem pode esperar. É um argumento que se inscreve na chamada estratégia do imobilismo, legitimadora natural de que nada se faça porque há outras matérias urgentes e mais importantes. Mas também padece de um erro de paralaxe: os fenómenos do Entroncamento não se inserem no dossiê dos “Problemas da cidade”, mas no dossiê vazio ao lado, onde na lombada alguém escreveu “Oportunidades improváveis”. Estando os dois na mesma prateleira, e tão próximos, devem, contudo, merecer perspetivas de abordagem distintas.
 
Outros concidadãos insistem em olhar pera as teratologias, histórias fantasiosas e até perfeitos logros dos anos de 1950 e 1960 da mesma forma estagnada, picaresca e ingénua com que eram vistas in illo tempore. É um modo de os ver naturalmente anacrónico, que parou na perspectiva e não acompanha os tempos. O caso é que estamos em 2017, os fenómenos, ou melhor até, as formas como olhamos para eles, devem passar para o nível seguinte. Todas as tradições, mesmo as mais castas, evoluem ̶ ou devem mesmo evoluir, e transformar-se, se querem continuar a sê-lo. Por outro lado, os jornalistas não têm hoje que se penitenciar por os fenómenos já não serem noticiados com o método, a etnografia e a persistência com que há 50 anos o faziam (e sabiam fazer) sobretudo o pioneiro Eduardo O. P. Brito e depois o delfim, Antero Fernandes. A motivação de ambos era diferente, e os tempos eram outros, os fenómenos eram então uma espécie de originalidade autóctone em fase de afirmação. E os seus rostos eram expostos publicamente em histórias que serviam de tema a conversas de rua e comentários intermináveis nas tabernas sem meter depressões, e compensando com vinho verde sem necessidade de psicanálises. Por falar em psicanálise, penso que um dos problemas dos fenómenos é que os seus concidadãos têm medo de ser originais e já perderam a alegria que as suas sugestões, por vezes subversivas, proporcionavam, como foram os heroicos casos da canária do maquinista Feliciano, das codornizes domesticadas do hortelão Mariano ou do galo, viajante clandestino num comboio de Elvas até ao Entroncamento, que cantou em todas as paragens do trem, mas, misteriosamente ninguém conseguia encontrar. Até que na nossa vila ferroviária se veio descobrir o seu paradeiro: em cima dos cilindros de um freio, onde percorreu com raro equilíbrio os cerca de 160 Km da viagem.
 
O busílis da questão é que a comunidade do Entroncamento deve partir para a reflexão de quais as iniciativas que têm potencial de desenvolvimento, mantendo os fenómenos como matéria-prima, mas olhando para além deles, em meta-análises que possam, elas próprias, trazer a sua originalidade numa afinidade que as mantenham próximas dos fenómenos. Que se tratarão inevitavelmente de aventuras com alguns riscos, disso ninguém duvida. Mas devem ser pensadas em grande e fazendo apostas na excelência e no improvável, solicitando vontades e pedindo contributos de elevada competência depois de ponderar a sua viabilidade. Por exemplo, haverá retorno para uma iniciativa que no Entroncamento possa promover a realização bienal no verão de um festival ou de uma semana consagrada a instrumentos exóticos de todo o mundo (por exemplo com insignes e virtuosos executantes de instrumentos antigos, ocasionais, raros, pós-modernos, insólitos, estranhos ou simplesmente pouco comuns como o saltério, a sarronca, o didgeridoo, as hang-drums, o mbira (piano de dedos), a nickelharpa ou a harpa eólica, o morin-khuur (um tipo violino que paga muitos créditos aos cavalos), feitos de vegetais (que se comem no fim dos concertos…), etc.? Nos anos intermédios, seria possível celebrá-los com jornadas ou colóquios consagrados à excelência e à excecionalidade, foras de série, às suas experiências de vida e aos seus testemunhos sobre a forma como chegaram a “fenómenos”. As abordagens podiam incluir naturalmente portugueses, mas também estrangeiros, mas sem esquecer os muitos exemplos que o Entroncamento já produziu (e continua a obter) em várias áreas e que souberam e sabem destacar-se a nível nacional e mesmo internacional. Não haveria restrição para as especialidades em que se tivessem destacado, que tanto podiam ser a música, como o futebol (os fenómenos Cristiano Ronaldo ou Ricardinho), o hóquei em patins, a pesca desportiva, a literatura (Eduardo Lourenço, António Lobo Antunes, José Luís Peixoto), a arbitragem (onde tivemos figuras de destaque no futebol e no hóquei, como Armelim Ferreira e outros) e muitas outros sectores. Seria igualmente um pretexto para se convidarem participantes de várias áreas científicas para falarem de talentos e do que é necessário para se atingir a excepcionalidade. E, claro, o termo “fenómeno” devia sofrer aqui uma deslocação no seu conceito original e ficar mais aberto aos novos tempos e a novas conotações.
 
Por fim, e de uma forma mais tangível, é possível apostarmos em deixar representações de fenómenos cravadas em afirmativas esculturas de calcário, ferro ou outros materiais assinadas por escultores de inquestionável prestígio e que ficariam implantadas com destaque nas principais rotundas e espaços nobres da cidade, deixando ainda espaço para a street-art, com talentos emergentes ou consagrados (alguns estão familiarmente ligados ao Entroncamento) que pudessem tornar espaços públicos e edifícios degradados em quadros de episódios ligados aos fenómenos da cidade, capazes de contar uma história e surpreender a nós próprios e a quem nos quisesse visitar.