Pediram-me, há dias, para ir falar sobre José Duarte Coelho, tarefa que aceitei com agrado, pois há anos que leio textos sobre ele e ouço contar histórias. Para além desse conhecimento vindo do papel e da transmissão oral, conheci-o pessoalmente.
Quando a Ana Geraldes e eu organizámos o livro Cá pelo Burgo, com as crónicas do jornalista O. P. Brito, o primeiro trabalho que fizemos foi lê-las de cabo a rabo.
Começámos nos anos trinta, viemos andando por aí fora e só parámos no ponto onde o jornalista deixou de escrever.
Havia muito textos sobre José Duarte, como é evidente, pois o homem tinha sido presidente da Junta de Freguesia desde 1926 até 1947, e presidente da Câmara Municipal desde 1947 até 1959.
Uma dessas crónicas parecia algo fantasiosa. Diz ela, traduzindo em linguagem corrente, que quando José Duarte estava com falta de dinheiro para acabar obras, e queria acabá-las no tempo previsto, não estava com mais aquelas, hipotecava uma vinha que tinha na Ribeira de Santarém.
Conhecendo (quem conheceu, é claro) a grande admiração que o jornalista Brito tinha por José Duarte Coelho, e como ao longo de anos enalteceu o seu trabalho de autarca, poderá parecer que há nesse texto uma certa tendência para aureolar o presidente com uma faceta benemérita exagerada ou mesmo inexistente.
Quando a Mirita trabalhou na Junta de Freguesia, o seu avó António Beato, nessa altura já reformado, propôs-se um dia ajudá-la a organizar a papelada do José Duarte, correspondência vária e outros documentos que estavam guardados mas não arrumados. Pacientemente organizou tudo em álbuns, sem omitir o mais pequeno papel. E no meio daquilo tudo, lá vinham os documentos de hipotecas da célebre vinha do Monte do Trigo, na Ribeira de Santarém.
Já sem ser pelas crónicas de O. P. Brito, mas pesquisando nos livros de atas da mesma Junta de Freguesia de que estamos falando, deparei-me com uma história parecida. Mas antes de entrar no conteúdo da ata, vou apenas dar uma explicação, para contextualizar o assunto.
Estava-se em 1936, o Entroncamento tinha duas escolas, ambas denominadas Camões, as duas da CP, uma delas já velha, construída no final do século XIX, e cedida ao Estado para o ensino público, a outra moderna e quase acabada de estrear, para os ferroviários e seus filhos (está agora decadente e se não lhe acodem, ficamos sem ela).
A escola pública, a romper pelas costuras, ressentia-se também da vizinhança dos comboios, nesse tempo a vapor, e era de urgência encontrar uma alternativa. Ficava essa escola, mais ou menos, onde estão hoje um parque automóvel e o antigo dormitório da CP.
Para implantar uma escola era necessária autorização superior, como foi sempre, mas essas autorizações estavam suspensas devido à elaboração de uma Carta Escolar. Salazar queria construir escolas onde não as havia, mas metódico como sempre foi, ordenou um levantamento total do país, para saber o que havia e não havia. Foi a partir dessa carta que se construíram as escolas chamadas do Plano dos Centenários, porque tiveram o seu arranque em 1940, ano de comemorações de centenários (1140, 1640).
José Duarte precisava de uma, ou mesmo duas escolas, tal era o número de alunos a necessitar de espaço, e não era para 1940, mas para estarem terminadas em 1938. Havia uma lei muito excecional que previa a construção de escola desde que houvesse um bairro constituído e não a tivesse.
Bairros tinha o Entroncamento, novinhos em folha ou em construção, de um lado o que viria a ser o Bairro Salazar, nessa altura ainda a erguer-se, do outro lado da linha o Bairro do Jardim. Escolas é que não havia lá.
Com a ajuda do deputado Amaral Neto, conseguiu-se a almejada autorização. E o dinheiro? Onde o vamos buscar?
Agora é que vamos para a ata.
Reuniram o presidente e os vogais, José Duarte Coelho, Frutuoso Mendes e António Picciochi Garcia e decidiram o seguinte: “Porque a Junta não tem disponibilidades para dar início aos trabalhos das construções das escolas e da Sede, trabalhos estes com prazo marcado de conclusão, cairíamos fatalmente na perda das comparticipações e deste modo no prejuízo da Terra cujos destinos nos estão entregues.
Como a Junta não está autorizada a contrair empréstimos, deliberaram os homens que a compõem, conjuntamente com o sr. Eduardo Brito, levantar na Casa Bancária Godinho de Tomar, em seus nomes pessoais, a quantia de quarenta mil escudos ao juro da lei, que puseram à disposição da Junta para que esta solvesse os seus compromissos e caminhasse.”
Esta ata é de 17 de novembro de 1936 e a sede de que falam é o edifício que mandaram construir para a Junta, com tal modéstia de dimensões que é hoje a câmara municipal.
As escolas foram inauguradas em 1938, uma junto ao Bairro Salazar, outra perto do Jardim Pereira Caldas.
Para terminar estas histórias, contarei só mais uma, que não tem final feliz. No início do mandato de José Duarte na Junta de Freguesia, o Entroncamento não tinha nada, nem cemitério (os mortos iam para o cemitério da Atalaia ou da Meia Via, consoante estivessem de um ou outro lado da linha), nem igreja, nem mercado, nem água, nem luz.
O cemitério fazia muita falta, e as outras coisas também. Então José Duarte distribuiu pelos comerciantes da terra uns papelinhos que diziam, creio, 1 escudo. Era uma espécie de crowdfunding daqueles tempos, as pessoas davam o dinheiro e contribuíam deste modo para as despesas da sua futura acomodação. Mas eles não gostaram da ideia, não vingou. O cemitério fez-se, mas não foi por esse meio.
Não há hipótese de transposição destas situações para agora, os contextos são outros, o tempo é outro. Mas as histórias, essas, acho que devem ser contadas. Elas fazem parte das dores de crescimento de um Entroncamento a aumentar vertiginosamente, sem estruturas que acompanhassem condignamente o crescimento populacional, e testemunham como um grupo de homens sem subsídios da UE, ultrapassava os obstáculos, para que a Terra que lhes estava entregue, caminhasse. Não há dúvida que conseguiram, a Terra caminhou.