Não me é difícil reconhecer que, mesmo antes de ocorrer a sua inauguração (um dia há de ser…), a aristocrática ciclovia de Santa Catarina, designação nobre para a que na prática quotidiana será também uma frequentada pedovia, mais democrática e mais plebeia, é já um fenómeno de popularidade entre a população do Entroncamento. E há razões de sobra para isso. É um percurso linear alternativo, de pisoteio mais suave e com menor taxa de dióxido de carbono, onde os encontros serão mais descontraídos e até podem permitir algum motivo de conversa sem o incómodo ruidoso do tráfego automóvel e o stress previsto na semaforização das passadeiras.
 
Com o avançar das obras, complementadas com a sinalização vertical e as marcas e coloridos berrantes deixados no asfalto, é notória a determinação de nada se pretender deixar ao acaso e a preocupação na segurança de quem circula na ciclovia de Santa Catarina e também nas ruas e na avenida da Estação que com ela se intersectam. Em quase todos os cruzamentos, quem circula na ciclovia tem a sinalização horizontal de que deve dar prioridade aos que circulam nas ruas ou na avenida; e os condutores que conduzem os seus automóveis nas respetivas artérias têm igualmente sinalização vertical (e até largas marcas vermelhas no asfalto) advertindo-se assim dos perigos iminentes e de que deverão acautelar-se ou ceder o direito de passagem, pois estão em aproximação de passadeiras, passagens para peões, bicicletas e outros meios de transporte não automobilizado.
 
Numa primeira reflexão haveria que reconhecer o mérito do procedimento: duplas cautelas para que tudo funcione perfeitamente e não se faça dos novos cruzamentos pontos de conflitualidade, para não dramatizarmos muito os seus efeitos potenciais e reais. São medidas de grande generosidade e defesa da segurança pública, parecem tudo prever e tudo querer prevenir. Mas têm um pequeno problema. Não funcionam. E essa óbvia boa vontade pode até ser um pouco perversa, tornando paradoxalmente uma abnegada preocupação pela segurança nas ruas num acréscimo de riscos, de perigo e de sinistralidade.
 
O paradoxo é este: numa fase inicial, ciclistas, peões, skaters e automobilistas vão observar apenas a sinalização a que diretamente se devem submeter, e serão escrupulosos no respeito das imposições e a oferecer a prioridade. Mas, depois de terem, numa segunda etapa, um conhecimento mais completo da forma como funcionam as prioridades, e de que a outra parte (ciclovia ou estrada) também tem lá um sinal de condicionamento a limitar-lhe no andamento, os respetivos utentes tornar-se-ão mais afoitos, esquecendo os seus deveres e aventurando-se e dando primazia aos direitos. A nossa natureza é esta: porque é que terei de ser eu a dar passagem aos outros, se os outros (ciclistas, skaters, peões a manipular aprestos eletrónicos, corredores de estrada com ipads e outros aprestos auditivos ou automobilistas) também lá têm um sinal de perigo, e indicando que devem ceder a passagem? E é nesta indefinição de obrigações e direitos que se oculta o paradoxo de se tornar um excesso de cuidados e precauções numa fonte de perigos e possíveis acidentes e histórias de tormentas. A questão é que, no contexto global, os sinais podem ser contraditórios, as mensagens ambíguas e a hierarquia delas imprecisa…
 
Esta observação, vou admiti-lo claramente, não vem de uma reflexão distante e em abstrato, mas nasceu de um episódio arrepiante que testemunhei há poucos dias: um viking de fato de lycra, mas sem capacete, de cerca de 13/ 14 anos, entrou de bicla a cruzar a avenida da Estação em regime de “roleta russa”, valendo uma abrupta travagem, seguida de uma guinada para a direita do condutor do BMW, que ainda deve estar agora a agradecer ao sistema de travagem da máquina e a cogitar de onde irrompeu o rapaz, mais incomodado com o fato de lycra sem recuperação da queda que com o ardor do desinfetante derramado nos joelhos e num ombro.
 
Para além da sua originalidade básica, são muitos os méritos que a ciclovia de Santa Catarina contém no desafio que é. Resgatou para a cidade áreas urbanas centrais mas devolutas, é um projeto de mobilidade suave e sustentável que rasga o centro urbano e oferece alternativas ao carro numa cidade plana, sem declives significativos, e que devia há muito ter promovido os transportes públicos e a circulação em trotinetas, velocípedes de propulsão elétrica, bikes e vespas ou scooters. Recuperando, assim, o costume do Entroncamento operário e proletário das décadas anteriores aos anos 70, em que enxames de bicicletas pasteleiras, pedaladas em mobilidade suave pelas antigas gerações ferroviárias, enchiam as estradas à entrada e saída das oficinas e da própria estação da CP.
 
Estou, porém, um pouco cético em relação às condições e aos detalhes em que a nova ciclovia vai ser lançada. É ainda relativamente frequente (já foi mais) assistir a episódios de impropérios sonoros e buzinadelas que automobilistas por vezes dirigem a ciclistas, que consideram corpos estranhos à cidade, e a peões (esquecendo os seus direitos ancestrais), que devem manter um sentimento de culpa só porque escolheram esses modos de andar pela urbe. Se o futuro da mobilidade urbana sustentável passa pela criação de ciclovias e pelo deixar de tratar o peão e o ciclista como personagens secundárias, quando não estorvos, há que cuidar de outros aspetos que lhes são afetos. O estacionamento em estações de bicicletas, o aluguer de velocípedes (os maus exemplos de municípios que alugavam as suas bikes e estas só apareciam na feira da Ladra, têm as tecnologias GPS a contrariá-los…) e sobretudo uma cultura e educação de respeito pelos outros e de sentido de modernidade são essenciais.