A Câmara do Entroncamento e os responsáveis pela esquadra da PSP da cidade assinaram há poucos dias um acordo formal para pôr fim à conspurcação ritual que a cidade tem sofrido pendularmente nos finais de todas as manhãs de sábado após a realização do mercado semanal no recinto onde se investiram há alguns anos uns milhares de euros para o retirar dum terreiro com tendas seguradas por estacas e dar-lhe alguma dignidade. Nunca entendi, e dificilmente algum dia compreenderei, que um ser humano tenha tanta falta de respeito pelo seu semelhante, mas era aquilo que semanalmente poderia testemunhar no início da tarde de cada sábado quando, ao passar pelo local, assistia a uma nuvem de sacos de plástico que invadiam a avenida da estação e a estrada que aponta para a vila da Golegã, para além, naturalmente, do próprio recinto onde o vento e os plásticos desenhavam habitualmente a coreografia resultante de uma certa insolência social. Finalmente alguém decidira domar aquela realidade tóxica.
 
A avaliar por aquilo que circunstancialmente pude notar no último sábado, parece-me que o protocolo foi de aplicação imediata, e a contraordenação oferecida terá sido suficientemente dissuasora. As artérias e os passeios estavam asseados, não se descortinava lixo, ainda era visível, não obstante, a presença de algum pessoal de limpeza. O que poderia ser um simples gesto de consideração para com os outros e de respeito pela sociedade, tem de entrar, assim, no âmbito da coação social e de pressão policial e da comunidade para ser observado. Estão assim de parabéns, as autoridades democráticas eleitas e o comando da pela PSP pela iniciativa e pelos efeitos que começamos já a perceber.
 
Sucede, porém, que, no contorno do lado poente (e superior) do mesmo recinto, que também já foi das festas da cidade e continua a acolher a feira anual de abril, continuamos a deparar com os sinais de alguma incúria e esquecimento de quem terá responsabilidades. Há muitos, muitos meses, alguém, que deverá ser entendido seguramente no plural, num gesto do mais genuíno vandalismo, retirou do local próprio cerca de uma dúzia das pesadas lajes que delimitam a área (e que poderão servir de assentos a quem por lá passa) e as partiu ou lançou por aí abaixo, pela rampa que fica contígua. O assunto já deveria ter merecido atenção, mas não foi isso que aconteceu. É pena, puseram a coisa no côncavo da axila e meteram-na em seguida na gaveta, mas ninguém julgue que isto é coisa de lana caprina…
 
Há cerca de três décadas e meia os sociólogos urbanos George Kelling e James Wilson sugeriram publicamente a sua teoria dos vidros partidos no livro Fixing Broken Windows: Restoring Order and Reducing Crime in Our Communities, uma obra considerada hoje de referência nas áreas da criminologia e sociologia urbana. Imagine o leitor que um dia entra numa cidade pela primeira vez e chega despreocupado a um bairro de edifícios degradados, passeios sujos, papéis nojentos no chão, janelas partidas e espaços urbanos abandonados num ambiente humano degradante e até repelente, onde não faltam graffitis hostis e agressivos desenhados ao lado de obscenidades nos poucos espaços que sobravam da degradação. Claro que o leitor não se vai demorar por lá, porque ainda se sujeita a ser incomodado, maltratado ou pior. De certeza que não voltará a pôr os pés naqueles quarteirões e dificilmente regressará àquela cidade. Mas isso é o leitor…
 
O que os sociólogos urbanos defendem na sua teoria dos vidros partidos é que esse bairro é o habitat favorito para tribos de marginais e delinquentes por iniciativa própria ou free lancers que se autoexcluíram da sociedade. Se, por absurdo, voltasse lá algum tempo depois, tudo o que tinha observado estava pior, os gangs tinham feito o que se espera que façam e a criminalidade tinha crescido, quem sabe mesmo se em espiral. Os vândalos interpretavam os vidros partidos como sinais ou mensagens de que aquilo era território sem dono, por isso foram-se aproximando e, com alguma sorte, ocuparam os espaços degradados, deprimentes, muitas vezes incendiados.
 
O caso é que no Entroncamento há espaços assim e, como é natural e até corolário da própria teoria, são mesmo cada vez mais. Envergonha-me ver logo na entrada poente da cidade o estado a que se deixou chegar a Escola Camões e o que foi há cerca de um século um bairro modelar e pioneiro dum certo urbanismo social na Península Ibérica. Depois, o extenso bairro da Vila Verde na reta dos quartéis, o bairro frente à estação também oferece um ar desolado, em pleno centro cívico da cidade. Mas passando por estes, ainda o meu caro leitor está cheio de sorte, porque pelo menos ainda pode ver e circular sem ser incomodado por ninguém. Por enquanto…, é o que diz a teoria dos vidros partidos…