Nunca ouvi tão utilizadas como este ano expressões tão estranhas, sórdidas e aplicadas a propósito de tudo e de nada como “estás por tua conta”, “isto agora é cada um para si”, “isso não é problema meu” ou “meteste-te na confusão, agora trata de sair dela sozinho”. Não estou só a falar de pessoas que se desconhecem ou, conhecendo-se, ignoram-se, como ignoram mutuamente os seus nomes, origens ou condições. Mesmo assim, seria caso para condoer-nos na nossa condição humana. A verdade é que ouvi empregá-las a esmo mesmo entre familiares muito próximos, marido e mulher, pai e filhos, ou entre amigos, ou pelo menos supunha-se que o eram, e há muitas décadas.
 
Poderá ser um subproduto tóxico do alegado fim da crise económica e social, que os indicadores macroeconómicos dão como terminada, mas de que eu não estou tão certo dessa epifania social, por mais web summits que realizem, por mais nomeações do país como melhor destino turístico do planeta ou por mais ministros portugueses que nomeiem e depois elejam para os mais altos cargos na União Europeia. Durante a crise, com toda a gente (exceto alguns, que têm coletes à prova de todas as calamidades) agarrada à jangada, havia união e perseverança à espera que o país desentroikasse de vez. Mas com a anunciada retoma, agora cada um “está por sua conta”. Isto tinha lógica e fazia até algum sentido, mas só e apenas se estivéssemos a falar de onças-pintadas, chacais ou ofídios com escassez de recursos. Mas, na verdade, custa ouvi-las apregoadas como filosofia de vida pelo ser humana, e já agora não só aqueles que foram endurecidos por uma vida mais madrasta e se tornaram insensíveis e intolerantes. Há quem, mais jovens e não tendo passado por tanto, são-nos tanto e muito mais. Triste filosofia, tristes jovens, triste país…
 
Já lá vão muitos anos, mas recordo-me como se ainda tivesse esses tempos na pele, passei algumas épocas natalícias na aldeia onde os meus avós sempre viveram e donde sempre tiraram o seu pão das várzeas crestadas, e do solo magro que sobrava dos xistos, dos canchos, da “pedra-centeio” ou da “pedra-trigo” como diziam os aldeãos. Eram tempos pautados pela ditadura paternal de Salazar, onde o menos que os incomodava era a falta de liberdade imposta pelo Estado Novo. “Eu queria a liberdade para quê?!... Eu só desejava trabalhar de sol a sol, e saúde para cumprir o meu degredo, que era o que eu tinha de mais certo”, ainda o estou a escutar ao meu avô, um dia já depois de abril de 1974, depois de eu lhe ter perguntado se, depois de ter sido apoiante incondicional de Sidónio Pais, não sentia a falta dela. Eram tempos difíceis e sem motivo para grandes desígnios para além de histórias apócrifas e do assegurar a sobrevivência para cada dia e precaver-se para o seguinte. Eram tempos tão sofridos que o mais óbvio era cada um ser para si e para os seus, ignorar as dificuldades dos outros porque as que tinha já lhe chegavam e sobravam, e o mais prudente era olhar para cima e assobiar para o lado. Era natural que fosse assim, mas a verdade, bizarra, é que não era assim, longe disso…
 
Em muitas épocas históricas a Beira Baixa deu muitos heróis e ainda mais mártires ao país, mas sempre foi uma região inclinada para a pobreza e resignação, tanto como a humilde aldeia dos meus avós e dos avós deles, a minha “terra ancestral”, mesmo que nunca tivesse vivido nela, havia de a trazer na alma como um sinal. Nessa aldeia havia um velho arrabalde com casas de xisto por rebocar, quase indigentes, a meias com palheiros onde se resguardava o gado que ajudava no transporte e na lavoura, furdas para os suínos (o abono de família culinário da aldeia para todo o ano) e uma quelha paupérrima, onde viviam os mais excluídos de todos os excluídos da aldeia. Ao fundo desta quelha andrajosa, num tugúrio deprimente, onde para se entrar era preciso primeiro ajoelhar, e como cama havia uma enxerga com palha de milho, suja e rota, sobrevivia a Maria de Jesus, a mais humilde das criaturas humanas que algum dia conheci. Não se sabe como um dia, sozinha e embrulhada num xaile negro, chegou. Devota, não faltava às novenas nem às liturgias diárias. De seu nada tinha, exceto uma voz com algo de divino, com uma beleza estranhamente alva, límpida e doída. O timbre era, também inexplicavelmente, muito agradável, mas o seu conteúdo era o de uma súplica amarga sem o ser. Tudo num corpo e num rosto tão magros quanto se pode ser, nos limites da resiliência do ser humano, as rezas levava-as para a porta de casa para poder olhar o céu, que dificilmente lhe poderia parecer azul. Não era pouco o seu padecer, mas este era ainda acrescido pela insolência cruel de um grupo de fedelhos da escola que ao passar-lhe à porta gritavam “papa-hóstias”, apedrejavam a porta e fugiam, não se sabe se para fugir da sua maldade ou dos gritos atormentados e penetrantes que lhe arrancavam do interior do casebre de telha vã.
 
Naquela noite de Natal, como era habitual nas noites em que vinha o menino Jesus, estava toda a família, umas 16 pessoas se bem me recordo, reunida em torno de uma mesa tosca e acolhedora que ocupava quase toda a cozinha, dois cepos de sobro em frente um do outro inflamavam-se um ao outro e davam calor e mais afeto à consoada gelada que tinha na mesa, decerto, o que os bacalhoeiros portugueses da época traziam da Terra Nova, e os meus avós da horta, da quinta ou do lagar, as couves, as batatas, cebolas, alho, ovos, vinho, azeitonas, azeite, a sua vida. Um dos lugares ficou vazio, era um lugar no topo da mesa, o favorito do tio mais velho, ceifado esse ano num acidente de automóvel. Estava lá porque o recordávamos com a vontade que estivesse entre nós. Mas quando a ceia estava prestes a começar, alguém a um canto ergueu a sua voz a querer e a esforçar-se para que todos a ouvissem. Porque a voz era pequena, quase impotente como o corpo, mas era imenso o que tinha para dizer. “Eu lembrei-me e queria que fôssemos todos até ao fundo da quelha chamar a Maria de Jesus que está sozinha e eu gostava muito que viesse passar o Natal connosco e, pelo menos hoje, pudesse sentir este calor e saber que nós gostamos dela”, foi mais ou menos assim que se exprimiu a Ema, a bisneta da família, a mais pequena entre todos os presentes. Foi simbólico, foi patético mesmo, mas todos, com a Ema à frente, fomos pedir à Maria de Jesus que viesse, e veio, com lágrimas e choros no meio de um sorriso, o primeiro que lhe pressenti. O meu avô, áspero e ressequido na pele, mas sensível e com compaixão no seu corpo franzino, ficou para o fim, senti que naquele momento havia uma mola que lhe estava a saltar na mente. Uma hora depois da ceia ter terminado chegou e disse à Maria de Jesus que a partir daquele dia havia sete famílias do arrabalde que a iriam acolher e compartilhar com ela as refeições, em cada dia da semana teria uma casa para si, e quem olhasse por ela. Eram famílias pobres, mas que, mesmo sendo-o, tinham o suficiente para compartilhar numa solidariedade informal que o Natal, um lugar vazio, a Ema e o meu avô quiseram que emergisse. Também eram tempos em que, mesmo sendo pouco, ninguém ficava por sua conta, todos contavam e o problema de um era o problema de todos. E, no fundo, devia ser por aqui que se devia medir o carácter e o nível de uma sociedade.