Eça de Queirós (1845-1900) na juventude
 
Diz-se aos alunos e eles mal acreditam: atenção, que o Entroncamento aparece nos “Maias”. E, incentivando-se à leitura integral do romance antes da sua abordagem orientada, dão-se parabéns ao primeiro que chegar lá e trouxer para a aula o passo em que a estação dos caminhos de ferro do Entroncamento surge brevemente descrita, a traço grosso, mas de modo tão certeiro.
 
Apesar das mais de 700 páginas (na edição da Livros do Brasil), há sempre um ou outro aluno que, afastando-se da praga dos resumos, lê a obra na íntegra, e dá com o passo, mesmo a fechar o capítulo XVII, no final da ação central do romance. E é, naturalmente, uma pequena revelação para o leitor entroncamentense.
 
Quem teve o privilégio da leitura de “Os Maias” há-de lembrar-se. Dois seres de exceção (mas, lá está, a exceção não serve à felicidade), Carlos Eduardo e Maria Eduarda, encontram-se no maior dos acasos em Lisboa, apaixonam-se perdidamente e sabem depois que são irmãos. A tragédia, assumida de vez por Carlos após um breve período de negação, exige a máxima expiação: Carlos isola-se na quinta de Santa Olávia, onde crescera aos cuidados do avô Afonso – que não sobrevive ao desgosto e cuja morte pesa fundo na consciência de Carlos –, aí esperando pelo amigo João da Ega, que se lhe juntaria depois, para ambos fazerem uma longa viagem pelo mundo, que para Carlos seria o seu “trabalho de luto”, sediando-se finalmente em Paris, onde levará uma existência desencantada. Maria Eduarda, essa parte algures para França, passando a viver numa quinta perto de Orleães, e chega a casar-se com um tal Mr. de Trelain, como ela desiludido da vida, para “afrontarem juntos a velhice”.
 
No comboio que leva Maria Eduarda de Santa Apolónia até a fronteira com Espanha vai também João da Ega. Mas não viajam juntos e têm destinos diferentes: ela segue para França, ele dirige-se para o Norte, para se juntar a Carlos. A partir de 1864, a linha do Norte passou a entroncar aqui com a linha do Leste, que já chegava a Espanha desde o ano anterior. Fazendo jus ao nome, deste inicial entroncamento, como sabemos, nasce o Entroncamento. A bifurcação exigia uma paragem mais ou menos demorada, que aliás João da Ega prevê, quando, ainda em Lisboa, diz a Maria Eduarda: “Ainda nos vemos no Entroncamento”. E é justamente no Entroncamento, numa noite fria de janeiro de 1877, que se despedem para sempre. Para quem não conhece, vale a pena transcrever o passo:
 
No Entroncamento, Ega veio bater nos vidros do salão, que se conservava fechado e mudo. Foi Maria Eduarda que abriu. Rosa dormia. Miss Sara lia a um canto, com a cabeça numa almofada. E “Niniche”, assustada, ladrou.
- Quer tomar alguma coisa, minha senhora?
- Não, obrigada…
Ficaram calados, enquanto Ega, com o pé no estribo, tirava lentamente a charuteira. Na estação mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a máquina resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do salão, com olhares curiosos e já lânguidos para aquela magnífica mulher, tão grave e sombria, envolta na sua peliça negra.
- Vai para o Porto? – murmurou ela.
- Para Santa Olávia…
- Ah!
Então Ega balbuciou com os beiços a tremer:
- Adeus!
Ela apertou-lhe a mão com muita força, em silêncio, sufocada.
Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a tiracolo, que corriam a beber à cantina. À porta do bufete voltou-se ainda, ergueu o chapéu. Ela, de pé, moveu de leve o braço num lento adeus. E foi assim que ele, pela derradeira vez na vida, viu Maria Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, à portinhola daquele vagão que para sempre a levava.
 
Ora, até há não muitos anos, esta brevíssima descrição estava atualíssima, se excetuarmos o resfolegar da máquina a vapor: a estação mal alumiada, gente parada à espera de manobras e de ligações, mirones a rondar passageiras raras, soldados a acorrer à cantina… Para lá da ficção, tal como tantos e tantos portugueses que passaram circunstancialmente nos últimos 150 anos pela nossa estação, podemos bem imaginar Eça de Queirós em pessoa, apeado aqui, a caminho de Coimbra ou do Porto, ou de regresso à capital, rabiscando alguns apontamentos que depois utilizou para descrever o espaço que vai incorporar no final da ação central do romance. Linhas onde se encontram ou onde se bifurcam sonhos, memórias, destinos… E até personagens, que, como Carlos, Maria Eduarda e João da Ega, fazem parte do imaginário comum dos privilegiados que já tiveram oportunidade de ler “Os Maias”.