O silêncio é afinal uma parte daquilo que somos. O ruído e o silêncio das palavras habitam em nós, da mesma forma e com a mesma importância, sucede que em certos momentos, preferimos de longe, a intensidade do silêncio, por ser esse o lugar onde continuamos a pensar, sem a necessidade das palavras.
 
A utilidade do silêncio, é permitir, quase sempre a identificação de algumas situações, impossíveis de descortinar no ruído das palavras. Percebo hoje, melhor que nunca, que o meu motor na política, é a pura negação. Só assim, percebo a razão de continuar a preferir uma boa barricada, mais por saber onde não quero estar, do que a convicção de pertença.
 
A verdade, é que, desde a revolução industrial, que duas grandes propostas de organização social competiram entre si, o liberalismo e o marxismo. O marxismo, independentemente dos revisionismos de que foi alvo, teve uma paternidade assumida, e desde sempre as suas propostas se mostravam bastante sedutoras. Quem não se identificava com a superação da miséria e da injustiça, a superação da exploração no mundo e a redistribuição das riquezas, emprego pleno e habitação para todos.
 
Ao invés, o liberalismo nunca teve preocupações com a sua paternidade, não foi objeto de revisionismos, aparentemente muito menos sedutor, limitava-se a acreditar na livre iniciativa, no esforço individual, na criação de riqueza, no trabalho e na competição entre os agentes económicos, como condição da sua própria sobrevivência.
 
Ora, se na mesa do café, entre amigos, a conversa avançava para este campo da teoria social, claramente percebia que preferia o caminho mais lento e tortuoso de uma doutrina associada aos direitos individuais, às outras propostas, porventura mais sedutoras mas demasiado simplistas do marxismo. Facilmente conseguia perceber o lado ao qual pertencia, e percebia-o pelo sentimento de negação, de não conseguir pertencer ao outro lado. Lá está o meu espírito de negação a funcionar.
 
Fui assim, tanto nas opções políticas mais longínquas de que tenho memória, como nas mais recentes. Não me revejo, de todo, na oligarquia partidária que persiste em vingar no nosso sistema político. Sendo assim, está visto que opto, sem problema algum pela minha militância de princípios cada vez mais afastada dos partidos, Lá está o meu espírito de negação a funcionar.
 
No tratado da negação, de Fernando Pessoa (Raphael Baldaya), ele para tentar explicar a existência de Deus, afirma precisamente que o mundo é formado por duas ordens de forças, as que se afirmam e as que se negam, sendo certo que, se tudo o que vemos não é mais de que um amontoado de ilusões, então o conhecimento começa na vivência íntima das ilusões, é aí precisamente que começamos logo por repudiar, por vezes até na intensidade do nosso silêncio.
 
Por negação, e por vezes em silêncio, vou descobrindo onde pertenço. Acaba por ser este o sentimento que me move. É o meu motor ideológico. Talvez seja pouco, mas é o que tenho!