O título desta crónica foi, em parte, inspirado por algumas observações e comentários ouvidos ao longo de anos e, mais recentemente, por uma carta de uma leitora do semanário O Mirante, em que discorreu sobre geminações, combinações, excursões e comunicações.
 
Quero esclarecer que não há, da minha parte, qualquer intenção crítica, antes pelo contrário, este tipo de comentários suscitou a reflexão de que praticando o Entroncamento várias geminações, a mais antiga com Villiers-sur-Marne, em França, nunca houve, em relação à comunidade em geral, um esclarecimento do que são e para que servem as geminações. E não estando as pessoas esclarecidas, é natural que surjam pensamentos e comentários desta natureza.
 
Pela própria etimologia da palavra, as geminações servem para unir cidades, para criar laços de amizade e colaboração entre elas, e mais especificamente entre os seus cidadãos, aos mais diversos níveis – famílias, estudantes, associações culturais e desportivas, instituições com interesses mútuos, etc.
 
Num tempo em que a União Europeia está dividida em Norte-Sul, por questões financeiras, são os seus cidadãos que estão a fazer as pontes em todas as direções, exatamente através das geminações, sem cuidar se são mais ricos ou mais pobres. Cada um dá o que tem.
 
Feita esta pequena introdução, contarei resumidamente como surgiram e têm funcionado as diversas geminações.
 
O intercâmbio com Villiers-sur-Marne teve a sua raiz na emigração portuguesa dos anos 60 e 70. Villiers é uma cidade na periferia de Paris, na zona leste, com algumas afinidades com o Entroncamento. Cresceu com a construção do caminho de ferro, e dada a sua proximidade com a capital e o bom serviço de transportes, funciona um pouco como cidade-dormitório.
 
Nos anos já referidos, em que a emigração para França conheceu o seu apogeu, constituiu-se numa cidade ao lado de Villiers, Champigny, um bairro de lata que foi crescendo, até atingir, segundo se pensa, pois nunca foi possível estabelecer com exatidão o número de residentes, 10000 pessoas. Eram, muitos deles, ignorantes da língua e analfabetos. Os mais experientes enquadravam-nos no trabalho, mas como grande parte não possuía documentos, devido a serem clandestinos, viviam isolados da realidade francesa, e o seu mundo concentrava-se no “bidonville”. Aos domingos iam à missa e ao mercado de Villiers.
 
Com o tempo, a sua situação foi-se regularizando, o bairro da lata foi desmantelado, a pouco e pouco foram transferidos para habitações económicas, os filhos integrados na escolaridade francesa e crescendo já a praticar a língua. Ainda hoje Villiers-sur-Marne tem as marcas dessa vizinhança e dessa presença dominical. Há estabelecimentos com nomes portugueses, ao domingo, no mercado municipal, vendem-se os pastéis de nata, a broa, o vinho português, o chouriço, o bacalhau e o caldo verde. Há, numa localidade ao lado, uma estação de rádio que emite em português, 24 em 24 horas. É a Rádio Alfa, de um português com sucesso na construção civil.
 
No grupo de apoio social que ajudou esses emigrantes a superar as suas dificuldades de aculturação e integração havia um português e um francês que eram amigos, Manuel Bilreiro e André Téqui e foram eles que lançaram a ideia de unir Villiers ao Entroncamento, não porque o Entroncamento fosse terra de emigrantes, era sobretudo terra de emigrados, mas nessa ideia de migração constante em que temos vivido se construiu esta geminação, que teve o seu início, oficialmente, em 3 de dezembro de 1989.
 
O compromisso com Penafiel surgiu em 1991. Pode consultar-se o texto de compromisso entre Penafiel e Entroncamento, na página da Câmara Municipal. Tem havido contactos, mas poucas atividades, talvez por se tratarem de duas cidades portuguesas, e o conceito de geminação aplicar-se, em geral, a cidades de países diferentes.
 
Villiers-sur-Marne está, por sua vez, geminada com mais duas cidades, uma alemã, Friedberg e outra inglesa, Bishop’s Sortford, estando as três geminadas entre si, geminação que perfez, em 2015, 50 anos.
 
Nesse mesmo ano, foi estabelecida uma parceria entre Entroncamento e Friedberg, uma carta de intenções de geminação a concretizar no prazo de 3 anos. E, finalmente, no início de junho deste ano, foi também assinado um acordo de intercâmbio com a associação de geminação inglesa. Deste modo, as 4 cidades estão agora ligadas em rede.
 
Passemos à questão seguinte: Quem constitui os grupos, como são escolhidos, o que vão fazer e quem lhes paga a deslocação.
 
Há diversos tipos de encontros. Se forem encontros de famílias, em geral define-se o número de pessoas que cada cidade pode receber. Nas cidades que já têm associações de geminação, os associados inscrevem-se para os encontros. No Entroncamento, que ainda não tem associação, convidam-se pessoas que já receberam famílias, ou estão dispostas a receber.
 
Cada pessoa que viaja paga a sua deslocação. Fica alojada em casa de uma família da cidade que convidou.
 
E o que se faz durante o tempo de estadia? A associação de acolhimento preparou um programa, que não só dá a conhecer a cidade ou um pouco da região, mas também instituições locais, iniciativas, atividades culturais e até poderá haver atividades religiosas. Pode incluir uma reunião de trabalho para discussão de assuntos de interesse comum.
 
Como exemplo de intercâmbio desportivo, temos o do ténis do CLAC e do clube de ténis de Villiers-sur-Marne, que já dura há alguns anos. É um intercâmbio que funciona muito bem.
Os clubes definem as datas dos encontros, sempre baseadas nas férias escolares, uma vez que os participantes são sempre jovens. Cada clube que recebe prepara um programa para os seus convidados.
 
Desportistas, professores e acompanhantes pagam as suas deslocações. São acolhidos pelos tenistas de acolhimento. Este ano, o ténis do CLAC foi o único grupo que se deslocou a Villiers-sur-Marne.
 
Entre Friedberg e Entroncamento tem havido intercâmbio de jovens estudantes.
 
Para terminar, o plano de encontros entre as quatro cidades está feito até 2023. O que pretendemos então? Conhecer e dar a conhecer, partilhar outras geografias e outras culturas, estabelecer parcerias, criar laços de amizade.
 
E não, não é uma excursão. É muito diferente o turismo de massas de um encontro de geminação.