![]() |
Há algum tempo atrás encontrava-me envolvido numa acesa e interessante conversa de amigos sobre os melhores vinhos que passaram pelas nossas vidas. Sendo mais observador do que prelector neste tipo de diálogos (pois confesso a minha quase total aridez em conhecimentos enológicos), chegou inevitavelmente o momento indesejado, em que tive de descrever as minhas exíguas credenciais na matéria controvertida.
Assim, comecei por me torcer de desconforto na cadeira e fazendo apelo ao pobre historial das minhas degustações, disse: “O melhor vinho que já provei foi um tinto chamado «Solar das Francesas», tinha muito pó na garrafa e o rótulo vinha queimado nas pontas.” (isto com o ilusório orgulho de que lhe estava emprestar um certo lastro nobiliárquico, onde só faltavam as teias de aranha à mistura); exclamei ainda: “Ah! É delicioso e tem um sabor misturado com madeiras exóticas!” Confesso que não sei como é que me ocorreu esta ideia das madeiras exóticas, pois nunca provei qualquer tipo de madeira, mas algum processo retorcido de associação mental levou-me a prestar aquela adenda à minha resposta. Assim correu a minha apresentação do rúbeo líquido e que culminou com outras absurdidades, pois estava convicto de que o “Solar das Francesas” era proveniente do Ribatejo, quando afinal é da Bairrada e, pior ainda, o meu desconhecimento estendia-se até à completa omissão do ano da colheita (coisa que afinal parece ter um sacrossanto significado e que não me atrevi a desdizer). Seguiu-se um interrogatório cerrado para dissecar esta minha experiência enológica e sucediam-se as dúvidas sobre o aroma, a vivacidade, os taninos, o “pé”, o equilíbrio, etc., etc., etc.; questões bem intencionadas e provindas de eruditos que sabem apreciar o celeste néctar, mas que esbarravam - invariavelmente - com a minha assumida ignorância na matéria. Frustrados perante tamanha ausência de cultura enológica, a dada altura e em tom de brincadeira, um dos meus amigos afirmou que não percebia como era possível eu não saber mais sobre tais assuntos, pois, alegava ele: “Assim, torna-se impossível poder apreciar este vinho, com tamanha falta de informação!” Parei uns momentos para reflectir e retorqui-lhe: “Há alguma descrição que eu possa fazer e que se substitua verdadeiramente ao prazer de o ter bebido? Será possível conhecer um vinho, sem nunca o ter provado?”. Como devem imaginar, não obtive resposta.
Vem tudo isto a propósito (como mais tarde irão compreender) por causa das imensas questões que me têm sido colocadas sobre a Maçonaria. Fruto de um daqueles acessos de interesse pela temática – comunicação social oblige… – sou agora literalmente “inundado” de interrogações relacionadas com a “Arte Real”, oriundas de muitas pessoas que procuram saber – com natural curiosidade - se esta representa um grupo de conspiradores mal disfarçados, uma sociedade de adultos apaixonados por símbolos e segredos espantosos ou, na abordagem mais interessante de todas, perguntando se ser maçon é “garantia de emprego”! Tenho de conter alguns sorrisos perfeitamente respeitosos perante estas inquietações dos meus interlocutores e, começo sempre por observar que a Maçonaria não é uma extensão mais bem apetrechada do Centro de Emprego, nem uma religião alternativa onde a Gnose se pretende substituir ao Divino (como afirmam alguns católicos), nem um gigantesco escritório subterrâneo onde todas as Leis, as decisões ou cargos de responsabilidade social e política são previamente discutidos e negociados.
Efectivamente - acrescento quase sempre ao meu esclarecimento - as raras pessoas que conseguem entrar na Maçonaria com este tipo de pensamentos, ou com o intuito de obter vantagens conexas, são rapidamente detectadas e postas no seu devido lugar (leia-se, convidadas a sair). Aliás, este é o único “mito urbano” que é inteiramente verdade sobre a Maçonaria: trata-se de uma Irmandade altamente selectiva e avisada; selectiva, não no sentido da abordagem sociológica da escolha de elites (há gente de todos os extractos financeiros e sociais integrados na Maçonaria), mas no sentido biológico da geração de anti-corpos contra todos aqueles que, volta e meia “invadem” e “parasitam” o movimento, munidos de uma “agenda secreta” e visando obter os mais variados tipos de vantagens pessoais ou patrimoniais.
É pena ter de o constatar, mas há evidências históricas que apontam para que em todos os séculos passados desde a instalação da Maçonaria Especulativa, sempre houve quem pensasse que esta se tratava de uma espécie de mercado das indulgências ou que era “presidida” por uma espécie de Rei Midas, dotado do toque da transformação de Aprendizes em homens ricos e bem sucedidos. Na realidade, o novel maçon rapidamente descobre que é a ele que se pede que colabore pessoal e financeiramente para satisfazer as múltiplas realizações culturais, filantrópicas ou beneméritas e que vivem à custa do esforço activo e discreto de todos os obreiros (a título de exemplo e só relativamente aos últimos cem anos, consulte-se: http://wikilusa.com/wiki/Ma%C3%A7onaria_Simb%C3%B3lica).
Como é próprio de qualquer organização que guarda discrição nos seus trabalhos, fruto não só da experiência histórica de perseguições seguidas de aprisionamento, torturas e até da execução de muitos maçons (só na Segunda Grande Guerra Mundial estima-se que tenham sido mortos mais de 200 000 maçons pelos nazis), como também da necessidade de privacidade para a reflexão e aprofundamento dos valores humanos que aí se praticam, a Maçonaria desperta a todos um fascínio ou suspeita, que é própria das coisas mais reservadas. Imaginem um determinado vizinho que leva a sua vida mais recatada no remanso do lar, sem se expor demasiado às línguas do mundo, sendo simpático com todos, mas de poucas palavras sobre a sua vida pessoal ou familiar. Para muitos, torna-se alvo tentador de investigação e, para aqueles que nada conseguem descobrir, converte-se também em objecto de suspeitas e especulações. Assim se passa com os maçons, muitos preferindo não tornar pública a sua condição, para não alimentarem polémicas nem insinuações.
Em jeito de conclusão refira-se que segredos, na Maçonaria, há muito poucos; e, mesmo a generalidade desses “segredos”, estão quase todos nas livrarias ou ao alcance de um internauta mediano que se disponha a rever as centenas de milhar de páginas de informação e que se encontram à distância de um clique pela Net fora. Encontrará muito “lixo”, muita especulação, mas também algumas verdades.
Contudo, se alguém estiver interessado em percorrer um longo mas gratificante Caminho, descobrirá, longe de qualquer livro ou outro texto que os verdadeiros segredos maçónicos são, simplesmente, a metáfora do aprofundamento do melhor e do mais elevado que o ser humano tem para oferecer a si mesmo e ao seu semelhante e que nenhumas palavras poderão descrever adequadamente: não por se tratar de um repositório de grandes “segredos”, mas por ser uma experiência que, tal como o vinho com que se começou este texto, não pode ser verdadeiramente conhecido enquanto não for experimentado.
João Bianchi Villar
|