Há algumas décadas, a rondar antes e depois a época faiscante de abril de 1974, uma inefável inteligência da esquerda lusitana coloria alegremente o país como a pátria do fado, do futebol e de Fátima, cujos três “efes” repetidos lhe davam uma ressonância musical e rítmica a que se aderia sem enfado, e que garantiu o seu curso natural e a sobrevivência até aos dias de hoje. Esteja o leitor mais jovem desde já advertido que o tríptico estava longe de configurar um elogio. Eram mais três farpas ainda escorrer sangue, que de patriota tinham pouco e ainda menos de nacionalismo místico. Funcionavam como uma tripla aliança, mas para o lado da alienação, tipo música, circo e fé no além. Cada um tinha o direito à sua dose para não ficar descompensado. A melancolia mais conformada cabia nos fados da Amália, da Teresa Tarouca ou, nos casos mais extremos e deserdados, reconhecia-se no Fernando Farinha. O futebol era aparentado por esta aristocracia pseudointelectual (não aprecio muito a palavra, mas não encontro melhor no meu léxico matinal antes de beber o primeiro café) à mais pura alienação, ainda por cima com origem e extração plebeia. Era um móbil para derramar as frustrações semanais e as desilusões seminais, e os estádios o lugar geométrico e raríssimo onde os instintos mais proibidos tinham uma insólita oportunidade de assomar perante a apertada vigilância de Salazar. Havia o Eusébio, elevado no altar das preces, e os homens de preto e com apito, a quem se podia ofender livremente, numa das raras modalidades onde o advérbio se aplicava. E, claro, registava-se ainda o mistério de Fátima, para onde, crendo-se ou não, em cada mês de maio o povo se dirigia para completar a sua própria verdade, que não precisava de certificação. Se Fátima era, marxisticamente e em versão portuguesa, o “ópio do povo”, o futebol era a chiclete da patuleia acéfala, passe o pleonasmo, e o fado o matar de tempo para os que nada tinha para fazer, e outros vadios, párias e malteses, que quanto a eles, os “pseudos”, ficavam logo assim referenciados. De toda a nação só escapavam eles, a intelligentzia de esquerda (a que por deriva etimológica e tradução livre alguém mais tarde cunhou com o ferro certeiro de “esquerda caviar”), que não se havia deixado contaminar pelos anátemas degenerativos da lusitanidade e já planeavam metodicamente pôr fim à criminalização do piropo, às touradas de Barrancos e outros males estruturais da sociedade portuguesa. Portugal era uma caricatura representada pela acentuação destas três degenerescências, pouco mais havia a fazer que ir escrevendo os sulcos do epitáfio na pedra.
 
Os tempos passaram, a caricatura entrou na União Europeia, aderiu ao euro, e há que observar o que entretanto aconteceu, sobretudo nos últimos anos. O género piroso e retrógrado, musicalmente ao nível da sargeta e poeticamente pouco mais que mendicante, tornou-se, e com toda a justiça, Património Intangível da Humanidade, um estilo que se soube reinventar depois da morte de Amália, e que apresenta hoje nomes como Mísia, Ana Moura, Carminho e Mariza. Internacionalmente, e nas revistas mais respeitadas da world music, área onde se inscreve o fado, o estilo nascido nos bairros mais vernáculos e red light da Lisboa novecentista, é apresentado como uma expressão do que a portugalidade tem de mais seu, mantendo-se genuíno.
 
No âmbito do futebol, o país apresenta uma notável empatia com a modalidade, devidamente certificada por números, títulos, resultados, entusiasmos e eleições, desafiando ainda estudos sobre o caso do nosso sucesso no mundo dos chutos no esférico. Campeões europeus com a seleção nacional em 2016, e com reiterados sucessos entre as seleções mais jovens; com Cristiano Ronaldo considerado o melhor jogador do mundo, “problema” agravado pela sua múltipla reincidência; com Ricardinho, o mágico do futsal, a vidrar em cada lance os olhos dos adversários; e José Mourinho ainda possivelmente o melhor treinador do planeta, para além de indiscutivelmente o mais polémico de todos. O influente treinador sadino criou também um curioso efeito de âncora, abrindo as portas de vários países de top no futebol à entrada de treinadores portugueses, que em regra têm conseguido trabalho, títulos e pergaminhos sem margem para grande discussão.
 
E em relação ao último “éfe”, Fátima, para além das convicções que se podem ter ou não, e do bom ou mau uso que se tem feito da fé dos outros, a vinda dentro de dois meses do Papa Francisco ao santuário mariano por altura do centenário das “aparições da Cova de Iria”, onde poderá também anunciar a canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta, confirmam a pujança do seu fenómeno religioso no seio não só da cristandade, como da sociedade portuguesa e do turismo no nosso país. Os três patinhos feios, as três caricaturas grotescas que um dia foram alvo do desdém de alguns morgados ideológicos, comungavam entre si as suas dores e ajudavam a fauna “pseudo” a “celebrar” o país atávico e retrógrado do passado. Acusado de retrógrado, resignado e conformado à situação mos tempos de Estado Novo, o fado; imputada ao incenso e ao bafio cúmplice da realidade do antigo regime, Fátima; e invocado a todos os demónios e anjos alucinados, o futebol; depois de uma inversão da perspetiva, que felizmente soube deixar os políticos a uma distância higiénica, a velha e santa trindade das alucinações lusíadas fez um upgrade e projetou-se com esplendor e sem favor no país e no mundo.
 
Segundo um inquérito que li há alguns anos, o European Values Study, de 2008, as três mais importantes fontes de orgulho de ser português, eram exatamente a sua História, o seu Desporto e a Arte (e literatura) lusíada, itens onde cabem sem empurrar os expurgados três “éfes” nacionais. Eles são hoje linhas salientes da nossa portugalidade. Quanto aos seus inquisidores pouco sobra, talvez tenham algum dia falecido por terem mordido, por ser tanto, o veneno que traziam na língua. Mas ninguém deu por isso…