Há umas semanas escrevia um cidadão num jornal de referência da nossa região que os partidos de esquerda, nomeadamente o Bloco de Esquerda e o PCP, se armavam em defensores exclusivos da ferrovia e era um chover de propostas e moções sem qualquer resultado prático, dado que dos investimentos anunciados pelas Infraestruturas de Portugal nem um tostão era destinado ao Entroncamento.
 
Compreendo a azia de quem, há anos enrolado pela inércia dos que se vão eternizando no poder, cada vez mais descomprometidos com o bem-estar dos cidadãos, se sente incomodado pela resiliência dos partidos que à margem dos poderes constituídos se vão batendo pelas pequenas e pelas grandes causas. E não é uma causa pequena a urgente necessidade de reabilitar as infraestruturas ferroviárias, nomeadamente, como era o caso em apreço, da estação do Entroncamento.
 
O jornal Público do passado dia 13 de Março publicou um relatório das Infraestruturas de Portugal e o título da notícia era justamente
 
Relatório aponta mau estado de mais de metade da ferrovia portuguesa.
 
Quase 60% das linhas de caminho de ferro têm classificação de “medíocre” e “mau”, aponta o tal relatório. E traça o diagnóstico de uma ferrovia que há muito aguarda por obras de modernização e cuja vida útil, em alguns casos, já expirou há muitos anos. E cita o caso dos 35 quilómetros do troço Ovar-Gaia da Linha do Norte, onde “qualquer tipo de intervenção de manutenção produz efeitos pouco duradouros” e que obtém a classificação de 1.9 (mau) numa escala de 1 a 8, sendo apontada a “necessidade de intervenção urgente”. Na lista dos troços em pior estado, destacam-se também, na Linha do Douro, os 32 quilómetros do troço Tua-Pocinho. A via estreita de Espinho a Oliveira de Azeméis e de Aveiro a Sernada do Vouga são outros dois troços com classificação mais baixa.
 
Com a classificação de medíocre, encontram-se a Linha de Cascais e da Cintura de Lisboa (Alcântara Terra — Braço de Prata), a linha do Algarve entre Lagos e Faro e a da Beira Baixa entre Entroncamento e Sarnadas.
 
Para além dos cortes orçamentais que impediram as obras de modernização e manutenção, a reportagem destaca também os cortes de pessoal, com a perda do know how acumulado ao longo dos anos e o recurso ao outsourcing de empreiteiros externos.
 
Dos 20 descarrilamentos registados pelo Público nos últimos quatro anos, cerca de dois terços ocorreram nas linhas do Douro e da Beira Alta, tendo esta metade do seu percurso classificado como medíocre. Aliás, ainda esta semana, na martirizada linha do Douro ocorreu, em Sabrosa, mais um descarrilamento.
 
O traçado das linhas férreas tem acumulado ao longo dos anos problemas de natureza estrutural cada vez mais graves. Sem de modo algum fazer a apologia da guerra, o facto é que as duas guerras mundiais ao destruírem por completo as infraestruturas ferroviárias de quase todos os países da Europa permitiram a modernização e a correção dos traçados na construção das novas linhas. Portugal, ao ficar à margem desses conflitos, livrou-se dos horrores da destruição provocada pela guerra mas também manteve, por isso, o mesmo traçado das linhas ferroviárias com os constrangimentos reconhecidos e quantas vezes remendados. Para além de tudo o mais, Salazar era avesso a grandes investimentos, preferindo uma política de se ir remendando com investimentos menos pesados nas contas públicas. Todavia, qualquer ferroviário experimentado conhece, por exemplo, as dificuldades de implementação da eletrificação na linha da Beira Baixa devido aos constrangimentos impostos por um traçado com mais de cem anos de existência.
 
Vem esta conversa a propósito dos investimentos anunciados para a ferrovia portuguesa, nomeadamente na linha da Beira Baixa, com a reabilitação da circulação entre a Covilhã e a Guarda. Esta circulação de comboios não vai sobrevoar o Entroncamento. Esses comboios vão afrontar o ar que respiramos e as infraestruturas locais, nomeadamente a passagem de nível das linhas do Leste e da Beira Baixa, bem como as condições da própria estação ferroviária local vão ter de ser revistas e melhoradas.
 
Não é apenas uma forma indireta de fazer participar o Entroncamento nos grandes investimentos ferroviários que estão a ser preparados. É a afirmação inequívoca da indispensabilidade de estarmos por dentro, de incluir as alterações ao estado ferroviário na ordem do dia, na agenda local. Referimos a passagem de nível do Leste e Beira Baixa como um anacronismo que é urgente remover da nossa paisagem quotidiana, para bem da qualidade de vida e da segurança dos nossos concidadãos. Já nos pronunciámos várias vezes e em fóruns diversos quanto à premência inadiável de obras na estação do Entroncamento por forma a torná-la confortável, segura e, porque não, moderna. Mas o estado ferroviário dentro da cidade do Entroncamento tem outras pedras de toque a reclamar intervenção urgente. Há um espaço ao lado da estação dos caminhos de ferro, supostamente para um parque de estacionamento, mas há anos que ali vão convivendo o lixo e as ervas altas, com cobras e ratazanas à mistura. E que dizer do estado de degradação dos bairros ferroviários, nomeadamente um dos nossos genuínos ex-libris como é o Bairro Camões?
 
Bem podem apregoar que o Bloco de Esquerda prega no deserto e que a sua voz é inconsequente. Fazemos o nosso trabalho com o mandato dos cidadãos que nos elegeram. Bom seria que os outros partidos também se envolvessem e lutassem pela inadiável resolução destes problemas. O bem comum estaria salvaguardado e o Entroncamento seria uma cidade mais moderna e com melhor qualidade de vida.