A UCCLA – União das Cidades Capitais da Língua Portuguesa reeditou em 2015 uma selecção de poemas da obra de Thomaz Vieira da Cruz, poeta natural da vila de Constância.
 
É, sem dúvida, mais um reconhecimento internacional do valor e prestígio do poeta e da sua obra. Thomaz é referência obrigatória por exemplo da enciclopédia britânica.
 
Há cerca de vinte anos que se encontra pendente na Câmara Municipal de Constância um abaixo assinado da população para que seja reconhecido na toponímia o valor do seu conterrâneo. Na altura o escritor Meira Burguete ex--director do jornal «Macau Hoje» aceitou o meu desafio de promovermos essa homenagem ao ilustre constanciense que por vicissitudes da vida, passou parte da sua vida em Angola para onde foi trasladado.
 
Como é público o município de Constância não incluiu o seu poeta conterrâneo (Thomaz Vieira da Cruz) no mural dos poetas pintado junto à biblioteca municipal. Ficando adiada «sine die» mais uma vez, essa homenagem que é devida ao filho da terra. O que disse Saramago de Sousa Lara?
 
O signatário conviveu com amigos do poeta (caso do antigo presidente da Câmara Municipal do Peso da Régua, Eng. Manuel Alves Soares) ou mesmo de familiares de sangue do poeta.. Sabemos que o poeta era presidente do júri dos festivais de ranchos folclóricos de Constância e que, por exemplo, fez a instrução primária na vila.
 
Thomaz Vieira da Cruz (Constância, 22 de Abril de 1900) – Lisboa, 7 de Junho de 1960). Poeta, músico e jornalista, farmacêutico.
 
Thomaz Vieira da Cruz é considerado um dos precursores da literatura angolana., tendo aberto caminho para a geração que lutou pela independência.
 
Thomaz foi pioneiro, por exemplo, no uso do quimbundo, recorrendo a termos desta língua nacional angolana os quais grafou em português nos seus versos em expressões como «chingufo», «quissange» (instrumentos musicais) ou mesmo «cazumbi» (alma do outro mundo) entre muitos outros - Ver «O Sol,» edição de 16-01-2015.
 
Obras que escreveu:
- 1932 - «Quissange, saudade negra»
- 1939 - «Vitória de Espanha»
- 1941 - «Tatuagem»
- 1950 - «Cinco poesias de África»
- 1950 - «Cazumbi»
 
Datas e outros factos assinaláveis
Em 1938 alcançou o 1º prémio de poesia nacionalista sendo premiado pela Emissora Nacional com o título de «Príncipe dos poetas portugueses».
 
Thomaz iniciou a geração moderna da poesia angolana, tendo a sua poesia como nota dominante, um certo fatalismo denunciador das injustiças. Tal facto poder-se-á inferir a partir do exame supostamente superficial com que abordava as coisas; o seu universo intelectual é objectivo e os métodos históricos subjacentes na sua poesia são de carácter predominantemente burguês.
 
Thomaz, segundo a crítica literária, «é um caso típico da expressão poética de contacto e de aculturação de duas raças em presença» (Lopo de Sá, Diário de Luanda, 1972). Do mesmo crítico recuperamos a descrição física : «estou ainda a vê-lo com a sua abundante e completamente negra cabeleira de vate romântico, sempre animado por ideias generosas e acalentando iniciativas que dessem a conhecer ao mundo lusíada os seus anseios poéticos».
 
- 1961 – A Casa de Estudantes do Império inclui 21 poemas seus sob o título «Poesa angolana», seleccionados e prefaciados por Mário António e redistribuídos pelo Sol (ver edição de 2015 atrás citada).
- 1964, «A, B, C» - «Thomaz Vieira da Cruz foi hoje homenageado pela cidade de Luanda – O presidente da Câmara depôs uma coroa de flores à porta do jazigo (…) procedeu-se em seguida, em frente ao edifício da Escola Industrial ao descerramento da placa toponímica».
- 1964, 'O Comércio» - «Que não se procurem adjectivos para louvar o poeta que foi - que é – Thomaz Vieira da Cruz».
- 1965, 7 de Junho – É inaugurado o monumento ao poeta Thomaz Vieira da Cruz, em Luanda, no Largo Monsenhor Alves da Cunha, junto ao Liceu Salvador Correia, mandado erigir pela Câmara Municipal. Que depoiis foi destruído com a independência.
- 1970, «Artes e letras» - «Angola perdeu o príncipe dos seus poetas».
- «A Província de Angola - «Em relação a Thomaz está-se cumprindo o ritual póstumo consagratório dos poetas oficiais: Puseram a bandeira a meia-haste/ E decretaram luto na cidade/ Responsos, coroas, círios quanto baste/ Para iludir a eternidade/Teve o nome nas ruas/em monumentos: nasceu – morreu – tantos de tal – Poeta. Houve discursos graves, longos, lentos… /venham todos os ventos do planeta».
 
Da sua união com uma mulata «a sua flôr de bronze», nasceu Tomaz Jorge, seu filho, poeta, da geração de 50 que foi preso pela polícia secreta do Estado (anos 60), conjuntamente com outros escritores por participar em publicações em que manifestava «um grito de dor, provocado pelo sofrimento e discriminação que pesam sobre o povo angolano» - Antologia de poetas, 1976, República Popular de Angola.
 
Tomaz Jorge, Agostinho Neto e Viriato da Cruz viriam a integrar o movimento nacionalista literário «Vamos descobrir Angola».
«Amor, grande amor/formosura linda e calma/tu não és da minha cor/mas és muito da minha alma» - versos inscritos no monumento em Luanda.
Na sua primeira colectânea poética no poema «Os bailundos» Thomaz desceve «as tristes comitivas» que «procuram inutilmente, /mais longe, /sempre mais longe, /a terra da promissão».
Mias do que um fatalismo, assistimos à coragem da denúncia «destes homens que andam «descalços como Jesus», / porque não existe humanidade, / e o mundo foi sempre assim».
Era o grito em surdina da revolta que viria com a geração seguinte da qual Thomaz é o precursor.
 
José Luz (Constância)
 
Notas - Fotos do monumento em Luanda e do poeta.
 
Constância
por Thomaz Vieira da Cruz
 
Presépio com dois rios por moldura
Tranquilamente lembra o seu passado...
E tem no olhar a luz dum sol magoado
Notável Vila da Constância pura!
 
0h! Mutilada esquecida criatura
Velhinha sem maldade nem pecado
Que má guitarra encantou teu fado?
Notável Vila da Constância pura!
 
Na voz do Tejo, que é o nosso mar,
Vai reflectida a tua dor sem par,
Oh! Bem amada e minha ingénua irmã.
 
Temor que minha mãe guardou na morte
Terra mouro enamorada e forte
Que o amor a Portugal tornou Cristã!
09/06/1951
 
Post Scriptium - Aviso à navegação e aos «pára-quedistas» : o signatário tem certidão de nascimento do poeta, em Constância. Ainda estão vivos constancienses que se lembram muito bem dele. Não vale a pena tentarem confundir as pessoas com a identidade dum primo do poeta da Praia do Ribatejo com igualnome. Não insistam no ridículo.,