Uma questão preliminar se coloca: quem foi este orago, São Julião, da paróquia de Constância?
 
São Julião e Santa Basilissa (século III), terão feito voto de castidade porém, Julião, terá sido forçado pela família a casar-se com Basilissa. O casal transformou a sua casa num hospital, onde chegaram a atender mais de mil pessoas. Durante as perseguições de Diocleciano, Julião foi decapitado após ter sido preso pelo governador de Antioquia, no Egipto. Basilissa morreu pacificamente. (1)
 
São Julião é o padroeiro de várias freguesias como São Gião. Essa denominação aparece em Constância em 1536. (2)
 
Curiosamente,.em 27 de Março de 1822, a propósito da trasladação da paróquia para o actual templo (na sequência das invasões francesas), somente existe referência oficial à trasladação da imagem de São Julião exarando-se: «continuando como orago da paróquia» (3)
 
As actuais imagens existentes na Igreja Matriz (São Julião e Santa Basilissa) terão sido oferecidas no século XIX por uma família do Alentejo, por via de uma promessa. A encomendada a Lisboa resultou no envio por barco de duas imagens… (4)
 
Por todos estes motivos terá sido o nosso São Julião originário confundido com um dos seus homónimos? O problema é intrincado, tem solução canónica, mas a história tem outros desígnios e motivações.
 
Na lista dos santos que nos é facultada pela «Legenda Dourada» de Jacques de Voragine (5) surgem-nos vários santos com este nome entre os quais um São Julião, hospitalário, que vamos designar por ora, por «barqueiro».
 
Este último São Julião num acesso de ciúme terá morto por engano os seus pais . Este parricídio tinha-lhe sido profetizado por um cervo, com cara humana, que ele perseguia e a que não dera valor. Decidiu Julião redimir-se deste crime e, mais a sua mulher (cujo nome Voragine não revela), retiraram-se os dois para as margens de um grande rio, onde muitos perdiam a vida, e aí estabeleceram um grande hospital, onde poderiam fazer penitência. E estavam constantemente ocupados a fazer passar uma ribeira - «a ribeira» - a todos os que ali se apresentavam. E a receber todos os pobres. Um dia Julião acolheu no seu próprio leito um homem que lhe apareceu e que morria de frio. De repente aquele que parecia coberto de lepra levantou-se branco como a neve para o céu e disse ao seu hóspede: «Julião, o Senhor enviou-me para vos advertir que ele aceitou a vossa penitência e que brevemente ambos repousarão no Senhor». O que aconteceu segundo a lenda.
 
Jorge Campos Tavares informa-nos que os pais deste Julião eram espanhóis. Mais acrescenta o autor que se ignora a época em que ele viveu. (6)
 
Podemos sempre conjecturar como alguns já o fizeram com propriedade que São Julião e a mulher se fixaram no local onde actualmente existe Constância. Nos textos em latim e em francês atribuídos a Jacques Voragine há uma referência a um grande rio (o Tejo?) e, por outro lado, a uma ribeira (uma ribeira do Tejo, o Zêzere?) referentes ao local onde São Julião se fixou com a esposa. Uma pesquisa aturada sobre a origem das palavras (esse desenvolvimento não é matéria para este artigo) permite-nos esta conjectura última.
 
Quem reproduz e não conhece Constância e deixou no texto duas expressões distintas «grande rio» e «ribeira», dá-nos um indício de autenticidade! Uma ribeira não desagua no mar em princípio...
 
Certo, certo é que não se pode confundir este casal (que não foi mártir, donde, sem palma) com o outro do Egipto (Julião e Basilissa). Só por aproximação ou semelhança se poderá considerar mártir este casal cujos pais de Julião seriam espanhóis e se fixou onde havia um grande rio e uma ribeira - atenta a tradição da Igreja.
 
Segundo o direito canónico o costume, observadas as regras, faz lei. E assim pode afirmar-se hoje que, a paróquia de Constância tem por orago ou padroeiro, um São Julião (pouco importa qual foi ,mas que é um santo) e que na Igreja Matriz se veneram os santos São Julião e Santa Basilissa, como padroeiros. Fica aberta a história à investigação.
 
No recorte de uma gravura de Neale surge no tempo das invasões francesas a velhinha igreja paroquial de São Julião que, parece, já existiria no século XIII.
 
José Luz
 
(1)Enciclopédia Católica online, publicada por Kevin Knight in «New Advent»
(2) Arquivo da família Themudo de Castro, Livro V, citado em «Casa de Camões em Constância», por Maria Clara Pereira da Costa e outros , 1977.
(3) Livro de «Lançamentos de Pastorais e capítulos de Visita da Vila de Punhete» transcrito por Joaquim dos Mártires Neto Coimbra em 1954.
(4) Contava o cónego José Maria.
(5) La Legende Doree T.1, de Jacques De Voragine, Editor: FLAMMARION , Edição ou reimpressão: Janeiro de 1999
(6) Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos, Lello & Irmãos, Editores