No dia em que Maria de Lourdes Pintasilgo completaria 87 anos, 18 de janeiro, a Fundação Cuidar O Futuro e a Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, em parceria com o Graal, apresentaram em Abrantes, a sua terra natal, o projeto ‘Ouvir o Presente, Cuidar o Futuro: Homenagear Maria de Lourdes Pintasilgo’.
 
O momento foi o pontapé de saída para uma homenagem nacional, a decorrer em 2018, aquela que foi a primeira e única mulher a liderar um governo em Portugal, enquadrada nas comemorações dos 40 anos da institucionalização da organização que precedeu a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG).
 
A anfitriã da sessão foi a presidente da Câmara que referiu ser “um privilégio” receber em Abrantes uma iniciativa em que “somos desafiados à luz daquilo que foi o pensamento de uma mulher desafiante, à frente do seu tempo, que continua atual naquilo que são as políticas públicas para criar condições para uma efetiva cidadania e igualdade do género”. Maria do Céu Albuquerque sublinhou o trabalho da Câmara de Abrantes nessa área, reconhecido a nível nacional, referindo o Plano (em revisão) e o projeto Municipal para a Cidadania, Igualdade de Género e não Discriminação.
 
O pensamento de Lourdes Pintasilgo foi abordado pelo Sociólogo e também deputado à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, que conheceu e privou com a antiga primeira-ministra, tendo participado na sua campanha presidencial, em 1986. Pureza aludiu a traços da personalidade da antiga governante e da influência dos mesmos no seu pensamento e ação: “Pintasilgo detestava a simplificação e o pensamento fácil que acantona a realidade em gavetas arrumadinhas (…) Certamente pela verticalidade e pelo seu desassombro no modo de encarar a complexidade das coisas, foi sempre uma cultora da não fronteira”. Para o conferencista, “A luta por uma democracia completa, alicerçada na participação de todos os homens e de todas as mulheres, a partir das suas condições singulares, baseada num conhecimento apontado à transformação, valeu a Lourdes Pintasilgo a desconsideração do Portugal pequenino e mesquinho (…), dos senhoritos, que não perdoou o facto de ter sido interpelado por uma mulher inteligente e irreprimivelmente livre”.
 
Usaram também da palavra a Presidente da Fundação Cuidar o Futuro, Margarida Santos; representante do Graal, Maria António Coutinho e a Presidente da Plataforma Portuguesa Para os Direitos das Mulheres, Alexandra Silva.
 
Foi apresentada a 2ª edição do relatório Cuidar o Futuro que brevemente poderá ser consultado on-line http://plataformamulheres.org.pt/
 
O projeto “Ouvir o Presente, Cuidar o Futuro: Homenagear Maria de Lourdes Pintasilgo” propõe um conjunto de atividades em três grandes áreas: Estudos e Publicações; Mobilização local através de audições públicas. Culminará com uma homenagem a Maria de Lourdes Pintasilgo, a ter lugar na Assembleia da República, em 2018.
 
A sessão inaugural de Abrantes decorreu na Biblioteca Municipal António Botto e foi presidida pela secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade. O governo apoia este projeto porque, explicou Rosa Monteiro, celebra Maria de Lourdes Pintasilgo: “a mulher excecional que foi e o pensamento singular que construiu e nos deixou”, destacando a afirmação das políticas públicas de igualdade entre mulheres e homens, e de defesa e promoção dos direitos das mulheres e dos mais vulneráveis e concluindo ser este “um legado singularmente global, que pensa o mundo e com o mundo, sendo, por isso, um legado profundamente humanista”. Rosa Monteiro lamentou “a lacuna da memória recente” das gerações mais jovens sobre quem foi e o seu pensamento. Também a presidente da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres havia chamado a atenção para a necessidade de “democratizar” o pensamento de Maria de Lourdes Pintasilgo.
 
Fernanda Mendes