(O que Marcelo quer sei eu)
 
Não conseguindo esconder uma certa azia, para não dizer inveja pelo percurso de sucesso pessoal e político/partidário de Aníbal Cavaco Silva, e na tentativa de apoucarem a sua personalidade e de o conotarem como homem de pouca cultura, vimos em tempos alguns jornalistas da chamada “esquerda caviar”, nomeadamente Clara Ferreira Alves referir-se malevolamente ao ex-chefe de Estado nos seguintes termos: “Podem querer tirar Cavaco de Boliqueime, mas não tiram Boliqueime de Cavaco”. Talvez pretendessem com isto dizer que os nascidos na província, sendo filhos do gasolineiro ou merceeiro da esquina não passariam de impreparados e incultos saloios. Do seu ponto de vista, somente os chico-espertos da capital ou os nascidos em berço de ouro estariam suficientemente apetrechados para aceder aos mais altos lugares da Nação!
 
Ainda que bastante mais comedido e civilizado sobre esta questão, bem recordo que até Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) – também nesses tempos não deixou, por vezes, de escrever alguns textos jornalísticos roçando essa equivalente absurda tese. Embora com o devido respeito pela função que detém, sou de opinião que o actual (PR) nunca aceitou de bom-grado os enormes êxitos político/partidários então obtidos por Cavaco Silva, chegando mesmo a dizer publicamente que as duas maiorias absolutas por ele conquistadas para o PSD noutras tantas eleições legislativas não passaram de vulgaridades! Ora, se nos recordarmos que Marcelo nem sequer conseguiu por essa altura ganhar a Jorge Sampaio a corrida eleitoral para a Câmara de Lisboa, não poderá o comum cidadão concluir que tal afirmação se tratou dum infeliz desabafo carregado de ciumeira política?
 
Pelas suas inegáveis capacidades intelectuais, morais e cívicas, sou dos muitos que têm por Marcelo Rebelo de Sousa uma grande estima pessoal. Porém, visto que passa os dias fora do palácio rosado a tecer loas (muitas vezes injustificadas) ao actual Governo, muitos portugueses se perguntarão agora por que motivo ele ainda não conseguiu livrar-se do “velho” fato de comentador da TVI? Se é certo que o (PR) deve solidarizar-se com o seu executivo, até mesmo para lhe transmitir credibilidade bastante perante as várias instituições político/financeiras internacionais, também não vislumbramos quaisquer motivos para diariamente andar com ele ao colo!
 
Um (PR) não tem que vulgarizar a sua “muleta” presidencial com assuntos por vezes de lana-caprina”! Cada membro do Governo e o próprio (PM) devem seguir o caminho pelo seu próprio pé, e somente a eles compete explicar-se perante o Parlamento e ao País. Não será a ele que em cada evento de rua lhe compete comentar o trabalho de cada ministro, elogiar-lhe o bom desempenho, mas, por vezes, branqueando-lhe também certas asneiras políticas. Ao Presidente da República cabe capitanear o Barco-Nação. Levá-lo a bom porto seguindo as grandes linhas de rumo do necessário desenvolvimento económico-social, e velar pelo seu harmonioso e são relacionamento de carácter internacional.
 
 
Olhando para o actual panorama político Nacional, e reparando neste seu método de presidir, muito boa gente terá agora o direito de pensar que Marcelo abdicou das suas verdadeiras funções de (PR), e que o novo inquilino de Belém se vem transformando num eficiente porta-voz da chamada “geringonça”! Nas suas saídas quase diárias tudo lhe serve para comentário: Sejam estatísticas do INE ou do IEFP; sejam declarações políticas de líderes da Oposição, de sindicalistas, etc!
 
Com tamanha pressa em desculpabilizar esta governança por alguns dos seus fracassos na respectiva acção governativa, e a propósito dos sérios avisos recentemente lançados a Portugal por uma determinada Agência de Rating, cometeu mesmo o (PR) uma enorme “gafe” política, quando publicamente afirmou sentir-se feliz por aquela instituição ter dito que o nosso rácio económico se iria manter ao mesmo nível do lixo! De lamentar, ainda, foi também o ocorrido nesta última cimeira da COTEC, em Madrid, quando (MRS) afirmou à comunicação social de todo o mundo não o preocupar o facto da Banca Portuguesa ser dominada agora por espanhóis! Será que Marcelo concorda que seja Espanha a dar luz-verde aos futuros investimentos e ao desenvolvimento económico do nosso País? Quanto contentamento por nenhures! Quão pobre ambição!
 
Por tudo isto que aqui ficou expresso, certamente que muitos dos estimados leitores deste Jornal, tal como eu próprio, gostaríamos que os tais jornalistas ditos esquerdistas que então criticavam o Homem de Boliqueime tivessem suficiente coragem e criatividade para também agora dizer: - “Podem ter conseguido tirar Marcelo de comentador, mas nunca tirarão Marcelo do comentário”!
 
Salvo as devidas distâncias e sem quaisquer desabafos preconceituosos, o estilo de (MRS) faz-me agora recuar no tempo e na História, e lembrar certos episódios da histórica vida daquele famoso filósofo francês que dava pelo nome de Mirabeau. Também ele homem superinteligente, hipercativo, de cativante e fácil verbo, sempre que a situação se proporcionasse, logo aproveitava qualquer altinho de rua, escadório, coreto de praça ou banco de jardim públicos, para dali botar discurso aos passantes, hábito que então nessa época lhe valeu o engraçado epíteto de “Mirabeau-da-canalha”!
 
Durante a corrida para estas últimas eleições presidenciais, ouvíamos algumas vezes Marcelo dizer que apenas lhe interessaria cumprir um único mandato presidencial. Mas, visto que o poder é doce, parece estar agora a vacilar e a mudar de opinião, pois já nos vem dizendo que só lá mais para diante decidirá o que fazer. sobre este assunto. Na minha infância e juventude, vividas ali para os lados do chamado Douro Vinhateiro – frequentes vezes ouvia da boca do povo anónimo uma espécie de aforismo regional que dizia o seguinte: “Os de Loureiro – (simpática freguesia de Peso da Régua), nunca metem prego sem furar primeiro”! Tal aforismo nada tem a ver com os tempos e a realidade de hoje. Outrora uma frase quase inocente, com alguma graça por ter uma certa rima poética, esse significado está nos dias-de-hoje completamente transformado num corrupto jogo de interesses pessoais, assim como numa espécie de maldição epidémica Nacional! Furar primeiro para meter o prego vem sendo agora o eficaz método para se obterem grandes resultados pessoais imediatos com o menor esforço. É assim que muitos (sobretudo políticos) têm conseguido os seus tão desejados canudos universitários. É desta forma que muitos chico-espertos encontram a sua mina de ouro com os vantajosos contratos de obras públicas ou privadas, ou outras várias negociatas com autarquias e organismos pertencentes ao Estado!
 
Tenho para mim que (MRS) se irá mesmo candidatar a um segundo mandato presidencial. Se assim for, talvez poderemos então dizer que também ele anda já a “furar primeiro, para depois com maior facilidade meter o prego”! ou seja:- vai fazendo “olhinhos-bonitos” a António Costa e ao PS, para depois contar com o maciço apoio dos socialistas nessa sua hipotética candidatura! Se os prognósticos aqui deixados se vieram no futuro a concretizar, seguramente poderemos voltar ao subtítulo deste texto e concluir:
 
“O que Marcelo quer sei eu”
 
Alfredo Martins Guedes