A UTE (Unidade Tripla Elétrica) 2001, e a UTD (Unidade Tripla Diesel) série 600, são exemplares únicos e singulares do panorama ferroviário português, a saber.
 
A UTE 2001, faz parte do 1º lote de automotoras elétricas que entraram ao serviço nos anos 50, do século XX, dando assim início a uma nova era da exploração ferroviária portuguesa, após quase um século de vapor, quando se deu início ao processo de eletrificação, constituindo dessa forma um passo importante na inovação ferroviária.
 
As UTD 600, decorrentes das então UDD 600, constituíram aposta semelhante no panorama da exploração ferroviária, encetando um processo de modernização e conforto, bem como da versatilidade que os referidos veículos proporcionavam.
 
As referidas composições, foram concebidas na então Sorefame de Portugal, atestando dessa forma a importância e o valor que a construção dos mesmos veículos ferroviários representaram, no panorama da indústria e economia nacional.
 
Nos decorrer da década de 90 do século XX, quando as UTE 2000 foram retiradas de serviço, houve a preocupação por parte da então Comissão Executiva Instaladora do Museu Nacional Ferroviário, que exerceu funções entre 1997 e 2002, em colocar a recato o exemplar nº 1 desta série, cedido pela CP, Comboios de Portugal, tendo a mesma sido parqueada no perímetro ferroviário do Entroncamento.
 
 
Fatores diversos, determinaram que o referido veículo, que se encontrava nas devidas condições de conservação, fosse sendo deslocado para fora do perímetro museológico, o que determinou se iniciasse um processo de vandalização sem precedentes, permitindo que o veículo atingisse um estado deplorável, a tal ponto que a CP, com consentimento da FMNF – Fundação Museu Nacional Ferroviário, acordassem na sua indiciação para abate. Tal decisão foi de imediato contestada por diversos sectores da sociedade, não obstante a CP e FMNF terem acordado em preservar um exemplar quase idêntico da 2ª série.
 
Porém, a decisão de preservar um veículo da 2ª série, poder considerar-se meritória, não deve a mesma determinar que se proceda ao abate da peça em questão, a UTE 2001, a qual, deverá ser preservada e resguardada, conjuntamente com o exemplar 2008, os únicos restantes, por forma a possibilitar que mais tarde se possa preservar a referida peça UTE 2001, com o auxílio dos componentes da UTE 2008, salvando-se deste modo um exemplar único, de inexcedível valor patrimonial a todos os níveis.
 
E sobre a questão do seu parqueamento, nem a CP nem a FMNF, poderão evocar dificuldades nesse sentido, uma vez que, neste momento, não faltam espaços para que se proceda ao seu resguardo, bastando apenas que as referidas entidades cheguem a acordo nesse sentido.
 
O mesmo sentido de preservação, deve estender-se às UTD 600, uma vez que a CP determinou recentemente o seu abate, que a verificar-se, não vai deixar preservado um exemplar desta série, apagando dessa forma a memória de um veículo ferroviário de inegável valor histórico, com anteriormente se referiu, e cuja preocupação de preservação, deve ser encarado ao mesmo nível da UTE 2001.
 
No presente, as oficinas da EMEF da Figueira da Foz, que se encontram encerradas, poderão constituir uma excelente alternativa ao resguardo das peças em causa, bem como outras, evitando desse modo a sua degradação total.
 
Uma vez que a CP, Comboios de Portugal, anunciou de novo a intenção de abater os veículos em questão, apela-se desta forma ao Presidente da República, Primeiro Ministro, Ministério do Equipamento, Secretário de Estado dos Transportes, Ministro da Cultura, Presidente da Assembleia da República, Comissão de Cultura da Assembleia da República, CP, Comboios de Portugal, FMNF, Fundação Museu Nacional Ferroviário, APAI, Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, APPI, Associação Portuguesa de Património Industrial, APOM, Associação Portuguesa de Museologia, ICOM Portugal, International Council of Museums, Câmara Municipal do Entroncamento, Assembleia Municipal do Entroncamento, Câmara Municipal do Barreiro, Assembleia Municipal do Barreiro, associações de aficionados, no sentido de se retroceder nesta decisão e se proceder de imediato ao resguardo das peças em questão, possibilitando desta forma a sua preservação no futuro e posterior integração no espólio ferroviário nacional.
 
António Pinto Pires
Mestre e doutorando em museologia ferroviária
ajpintopires@gmail.com
Junho de 2017