De todos os líderes que até hoje já passaram pela condução dos destinos do PSD, não temos qualquer dúvida, que o estilo e modus operandi político de Santana Lopes (SL) - é o que mais se assemelha à figura do carismático e saudoso Sá Carneiro. Como ele um visionário, honesto, inteligente, audaz… este ex-líder social-democrata encerra em si quase todas as qualidades exigidas a um bom estadista. Digo propositadamente quase todas, porque do meu ponto de vista lhe faltam pelo menos duas importantes premissas para o podermos considerar um político completo. Falta-lhe constância e a maturidade. Todos nós conhecemos os frequentes ziguezagues políticos protagonizados por Santana Lopes. Parece-nos que nunca se sente bem em lado nenhum. Bem nos lembrámos que ainda não terminara sequer um mandato numa determinada câmara municipal, e já nos anunciava nos jornais a sua candidatura a Belém, contra um seu companheiro de partido – o ilustre Prof. Cavaco Silva. Estava na presidência da câmara da Figueira da Foz e já queria ir mais não sei para onde… Estes movimentos repentinos de (SL) trazem-nos muitas vezes à memória aquela célebre canção de António Variações, que nos diz: “…estou bem / aonde não estou, eu só quero ir / aonde eu não estou…”
 
Depois de alguns anos encostado às “boxes” da Santa Casa de Misericórdia, suculenta e bem rendosa prenda normalmente atribuída aos políticos fora de prazo de validade, ei-lo que surge agora fresquinho e prazenteiro a lançar-se na disputa de uma possível segunda liderança da P.S.D. Todos têm direito a desejar e a sonhar com o melhor do mundo para as suas vidas. Mas, dados os estragos que anteriormente já causou ao seu partido, sobretudo após aquela curtíssima, mas muita conturbada governação do País, quer-nos parecer que este já não será hoje o mesmo Santana das últimas décadas! O que fará agora então mover Santana Lopes? Reconhecendo-lhe, embora, muitos e bons serviços prestados à causa social-democrata, ele deveria entender que o seu tempo já passou, e que é chegado o tempo de aceitar que novos rostos e novas ideias se apresentem em palco, pois é o futuro do seu partido que está em causa!
 
Bem sabemos que os conspiradores e os espiões sempre existiram. Eles andam por cá, entre nós - os chamados terráqueos, desde os primórdios da nossa já bem longa existência. Mas foi aí por volta do séc. XV a.C., que a sua acção se tornou mais agressiva, mais notável e sofisticada, sobretudo nos tempos daquelas lutas entre gregos e troianos. Lembra-nos a História, que os primeiros só conseguiram vencer os segundos, após uma longa guerra de cerca de dez anos, recorrendo à espionagem, à estratégia e astúcia militar. Fingindo abandonar apressados o local de batalha, deixaram propositadamente “esquecido” junto às portas da cidade de Tróia, um enorme cavalo de madeira recheado de soldados no seu bojo. Assim que os troianos levianamente dele se apoderaram e o introduziram na referida cidade, logo saltaram do seu ventre várias dezenas de soldados e numa batalha relâmpago conquistaram a capital do império troiano!
 
A ser verdadeira esta “estória”, julgamos que foi de mestre a golpada dos gregos sobre os troianos. É claro que nos tempos modernos já poucos líderes mundiais se aventuram a conquistar totalmente outros povos. Mas não põem de parte a sua avidez conspirativa, mantendo afinadas as máquinas de espionagem, no sentido de recolherem o máximo de informações sobre avanços tecnológicos, industriais, nucleares, ou mesmo de natureza política. Foi essencialmente por essas razões, que muitos países criaram esta espécie de “caçadores furtivos”, agrupados em bem organizadas agências, que foram disseminando por esse mundo. A esse tipo de organismos estatais, a que foi dado o nome de “inteligência”, bem poderíamos com alguma propriedade apelidá-los agora de “Cavalos de Tróia”!
 
Sabe-se que António Costa é astuto mestre na teoria da conspiração política. Que o diga o seu camarada de partido António José Seguro, a quem sensivelmente a meio do respectivo mandato destronou da liderança do PS. Que o diga também Passos Coelho, que embora tenha ganho as eleições legislativas, foi António Costa que subiu a primeiro-ministro!
 
Receoso dos estragos eleitorais, que Santana Lopes pudesse causar na cidade de Lisboa ao seu delfim Fernando Medina, nestas últimas autárquicas, logo António Costa entrou na liça para deter a “fera” social-democrata, renovando-lhe o mandato na presidência da Santa Casa de Misericórdia. Com este golpe de mestre da matreirice política, acabaria por deixar o PSD e Passos Coelho à beira de um ataque de nervos, obrigando-o a recorrer a uma figura de segunda escolha para a corrida à câmara da capital!
 
Diz-se que não há duas sem três. Neste xadrez político já (AC) ganhou as três partidas. Despachou o seu camarada Seguro, tramou Passos com a sua “geringonça” e tirou força à candidatura social-democrata à câmara de Lisboa. Agora, com este novo cenário de eleições para a liderança do PSD, surge-lhe um novo desafio não menos arriscado que os anteriores.
 
Está muito claro que António Costa teme a chegada de Rui Rio à liderança do PSD. Sabe que o ex-autarca do Porto não é um “salta-pocinhas” feito Santana Lopes, e que é muito menos moldável do que este. Rio é um político cerebral e frio - (assim ao bom estilo germânico) e de sentido único. Sabendo-se que a Santa Casa de Misericórdia é, quase por norma, gerida por um “reformado” político, é muito natural que, por vezes, também a possam meter em certas politiquices… Por isso, temendo o pior num futuro próximo, nada nos custa acreditar que António Costa tenha já relido a história das guerras entre gregos e troianos, para também como eles tomar as melhores opções. Assim, cauteloso e calculista como é, já certamente terá pensado na melhor estratégia para levar de vencida esta quarta partida (de xadrez) que agora se avizinha! Ao desvincular-se do seu posto de trabalho na Santa Casa, e apresentar-se quase à última hora a tecer armas contra Rui Rio, não estará Santana Lopes a fazer um “fretezinho” a António Costa? Será que o antigo “menino-guerreiro” se contentará em ficar também lembrado na história lusa como um “Cavalo de Tróia” dos tempos modernos? Se assim for, não deixará de ser um facto lamentável. Somos dos que pensam que Santana vale muito mais!
 
Alfredo Martins Guedes