Marta Antunes, médica da Unidade de Saúde Familiar “Locomotiva” do Entroncamento acusa o coordenador da USF, Dr José Carmona e a Diretora do ACES Médio Tejo, Drª Sofia Theriaga de exercerem pressão sobre ela desde o dia 31 de outubro, “na tentativa de me expulsarem daquela unidade de uma forma desumana com violações expressas a direitos fundamentais consagrados na lei”, pelo facto de ser delegada sindical e do seu pedido “com base no parecer da medicina ocupacional (tenho uma doença do foro oncológico) ”, de jornada continua.
 
A médica diz-se acusada de não contribuir para os objetivos de redução de custos financeiros da USF.
 
“ Desde que fui eleita delegada sindical (o que implica a ocupação de algumas horas por mês em reuniões) começaram os ‘recados’, comentários e pressões. As pressões são exercidas não apenas pelo coordenador da USF, Dr. José Carmona, mas também pela diretora do ACES Médio Tejo, Drª Sofia Theriaga”, contou ao EOL, relatando ainda que “esta senhora pediu inclusivamente à Direcção do Sindicato dos Médicos da Zona Sul as datas e horas das reuniões em que estive presente no sindicato. De notar que a coordenação é informada sempre que tenho reuniões e as consultas organizadas de modo a não prejudicar os utentes”, referiu.
 
No seguimento do diagnóstico da doença oncológica de que padece e que implicou já uma cirurgia, a medicina ocupacional recomendou-lhe que passasse ao regime horário de jornada continua.
 
Na sequência desta recomendação solicitou o mesmo à diretora executiva do ACES Médio Tejo, facultando-lhe os exames médicos que suportavam aquele pedido.
 
Segundo Marta Antunes, “aquela responsável entendeu, sem me ouvir ou solicitar autorização, enviar os documentos clínicos, privados e do meu foro intimo, para o coordenador da USF. Numa reunião do Conselho Geral da USF em que estiveram presentes médicos, enfermeiros e administrativos, o Coordenador entendeu fazer uma apresentação em PowerPoint do meu caso clinico provocando-me um sentimento de humilhação, dor e angústia e convidando-me a demitir-me da USF ou, em alternativa, seria expulsa da mesma”, revelou ao EOL.
 
“Este comportamento, à revelia da lei, dos mais elementares deveres deontológicos, e tanto mais grave porque praticado por um médico, foi já objeto de queixa junto da Ordem dos Médicos bem como da Comissão Nacional de Proteção de Dados”, relatou a médica.
 
Segundo nos explicou a médica da USF Locomotiva do Entroncamento, “as USF(s) de modelo B, como é o caso da USF Locomotiva, contratualizam objetivos anuais com a chefia. Os objetivos dizem respeito a controlo de diabéticos, hipertensos, seguimento de grávidas, obesos, etc., sendo que o mais pontuado com ponderação desses objetivos diz respeito a custos com medicamentos e meios auxiliares de diagnóstico. 
Objetivamente, quanto menos se prescrever em termos de medicamentos e exames aos utentes, assim será alcançado este objetivo e desta forma garantida a obtenção de incentivos monetários a médicos, enfermeiros e administrativos da USF. Isto cria uma situação de pressão, em que cada elemento da USF procura gastar o menos possível em medicamentos e meios auxiliares de diagnóstico”, explicou a médica, que concluiu: “Daqui decorre uma perversidade: as melhores práticas médicas podem chocar com os interesses económico-financeiros dos elementos que fazem parte da USF”.
 
“Embora totalmente comprometida com os objetivos da USF, os quais estão muito longe de serem apenas financeiros, o meu compromisso como médica é, antes de tudo, com a saúde dos meus utentes”, justificou afirmando que “a minha prescrição de medicamentos e de meios complementares de diagnóstico tem, sempre, e em primeiro lugar, o superior interesse do doente. Aliás, nem de outro modo poderia ser”.
 
“Como médica, encontro-me sujeita ao Código Deontológico da Ordem dos Médicos que estatui no nº 1 do seu artigo 6º que ‘O Médico deve exercer a sua profissão com o maior respeito pelo direito à Saúde dos doentes e da comunidade’ e no seu artigo 26º ‘O Médico que aceite o encargo ou tenha o dever de atender um doente obriga-se por esse facto à prestação dos melhores cuidados ao seu alcance’. Finalmente, o artigo 125º nº 1 do mesmo código preconiza ‘A liberdade de escolha pelo Médico dos meios de diagnóstico e tratamento, não pode ser limitada por disposição estatutária, contratual ou regulamentar, ou por imposição da entidade de prestação de cuidados médicos’”, afirmou a médica que considera que “é por isto que estou há largos meses a ser vitima de uma pressão intolerável e ilegal por parte do coordenador da USF Locomotiva, com a conivência da diretora executiva do ACES Médio Tejo, num momento em que me encontro particularmente fragilizada devido ao meu estado de saúde”, concluindo que, “Seria mais fácil demitir-me. Mas não o posso fazer em nome da minha dignidade e do superior interesse dos meus doentes”.
 
Contactada a Diretora do ACES Médio Tejo, Sofia Theriaga e o Coordenador da USF Locomotiva do Entroncamento, José Carmona, estes manifestaram que, “Apesar de discordarmos com aquilo que é afirmado, por não corresponder à verdade, entendemos não ser este o meio adequado para proceder à resposta, que na devida altura e no local adequado daremos”.