A entidade gestora pela infraestrutura ferroviária procedeu mui recentemente ao desmantelamento da via algaliada de via estreita ferroviária na estação da Régua, infraestrutura ferroviária essa que permitia a ligação de todo o complexo ferroviário entre si de via estreita nesta estação, nomeadamente do lado sul da estação onde estão localizados os cais de embarque da linha do Corgo com todo o complexo operacional do lado norte da estação, onde se localizam outras linhas de estacionamento e operacionalização deste modo de exploração ferroviário, bem como a sua articulação com o lado este da estação, onde até agora seria possível articular todo este complexo ferroviário com o complexo oficinal da EMEF localizado em Corgo. 
 
Esta medida adotada por esta entidade gestora, resulta certamente de uma atitude que não previu o futuro minorando e anquilosando deste modo as excelentes capacidades logísticas que a estação da Régua encerra (ou encerrava) para desenvolver neste complexo, os dois modos de exploração ferroviária, via larga e via estreita, bem como se ter delapidando um património ancestral de toda uma vida da linha do Corgo, descaracterizando um espaço de memória, quiçá dos mais fortes que encerra a história do caminho de ferro da via estreita em Portugal.
 
 
Tal como refere a Carta de Riga, 2005, que é uma declaração de princípios que orientam a conservação, o restauro, a manutenção, a reparação e a utilização do Equipamento Histórico Ferroviário, que é intervencionado, refere a mesma carta : “A manutenção de todos os aspetos do seu equipamento e o funcionamento numa base regular é essencial para a sobrevivência do Património Ferroviário. Colocar em funcionamento o Equipamento Histórico Ferroviário com os procedimentos tradicionais e apresenta-los ao público é um meio importante de interpretar esse material”
 
Tais atitudes revelaram ainda um desrespeito pela Carta de Nizhny Tagil, 2003, sobre “Património Industrial”, que refere e especifica “os vestígios da cultura industrial que possuem valor histórico”, como é o caso de toda a via estreita em Portugal, especificamente neste caso da estação da Régua.
 
Em face desta atitude específica, tais como outras que de ânimo leve se vão cometendo por esse país fora, deixo algumas questões:
 
1. Quanto custou ao erário público, sobretudo empresas públicas, nas quais conhecemos elevados passivos, retirar uma infraestrutura de elevado valor que não colidia com nada, não obstruía a normal circulação atual da via larga, e poderia ser resguardada como uma mais valia futura?
2. Colocada a questão de outro modo, e se a breve prazo se repensasse potencializar este espaço ferroviário, restituindo-lhe a dignidade de outros tempos, quanto custaria repor o existente?
 
No mesmo local onde se encontra estacionado este comboio a vapor de via larga, encontra-se uma outra composição de via estreita, composta por uma locomotiva a vapor outra locomotiva diesel, bem como três carruagens, que reúnem todas as condições para que neste complexo ferroviário possa funcionar esta composição de via estreita, como já ocorreu num passado recente e poder desenvolver uma outra componente de exploração turística com há diversos anos vem acontecendo com a via larga.
Esta composição de via estreita já foi colocada à venda pela CP, Comboios de Portugal, que recuou nessa decisão face à contestação internacional, tendo em conta ainda que a locomotiva a vapor que integra a composição, foi recuperada com fundos particulares deixados para o efeito.
Esta medida adoptada resulta de uma decisão, provavelmente fundada, mas que não colheu a opinião da sociedade civil, de outras entidades com voz e responsabilidade nesta matéria, uma vez que estamos perante infraestruturas do domínio público ferroviário, que fazem parte de uma memória que importa preservar e potenciar.
 
Num ato de desrespeito, não foram consultadas a APPI, Associação Portuguesa do Património Industrial, a APAI, Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial e o TICCIH, The International Committee for the Conservation of Industrial Heritage.
 
Com esta atitude, inviabilizou-se uma potencial riqueza de exploração, aproveitamento e usufruto de uma infraestrutura inqualificável e sem termo de comparação no quadro geográfico da via estreita em Portugal.
Aliás esta medida não é isenta de procedimentos semelhantes que recentemente foram adotados no panorama da via estreita, que têm contribuído para o anquilosamento e delapidação deste modo de exploração ferroviária, descaracterizando os territórios onde estão inseridos, ilustrados pelas fotos seguintes:
 
Nesta linha de pensamento, e na qualidade de conhecedor da realidade ferroviária portuguesa, seu historial e sobretudo potencialidades que visam precaver o futuro, a imagem e potencialização da via estreita ferroviária, que ainda pode desempenhar um papel de relevo no desenvolvimento deste país, O autor deste texto solicita a suas excelências, o Ministro do Equipamento e Infraestruturas, Assembleia da República, se dignem apurar das responsabilidades nesta matéria e sobretudo quais as motivações que estão por detrás destas decisões, que no entender do signatário estão a contribuir para a delapidação de um património de incalculável riqueza que urge preservar e pensar seriamente na sua reposição.
 
António João Pinto Pires
Mestre e doutorando em museologia
1º presidente da comissão executiva instaladora do Museu Nacional Ferroviário.
Membro da APPI, Associação Portuguesa do Património Industrial, APAI, Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, TICCIH, The International Committee for the Conservation of Industrial Heritage.