Decorrida uma década sobre o encerramento do troço da linha da Beira Baixa, entre a Covilhã e a Guarda, o governo do país, fazendo jus às políticas definidas no âmbito da mobilidade, procedeu no passado dia 5 de março, à assinatura protocolar das obras de modernização do troço em questão, consignação das empreitadas, inseridas no corredor internacional norte.
 
Nesta hiato de tempo, quase uma década, tiveram lugar vários questionamentos; numa primeira fase, o da indignação, surge na sequência do brusco e incompreensível encerramento da linha férrea, bem como da interrupção das obras de requalificação então iniciadas, onde foram investidos montantes significativos no eixo Caria - Belmonte; diversas opiniões têm evocado a perspectiva diacrónica do que esta infraestrutura significou para a região; numa fase mais recente, sobretudo após a tomada de posse do atual governo, assistiu-se a um renascer da esperança conducente à requalificação do troço aludido.
 
O 6 de Setembro, Grupo de Amigos do caminho de Ferro da Beira Baixa, fundado em 1991, por ocasião do 1º centenário da linha inaugurada em 1891, tomou como causas, não apenas a comemoração do evento, mas sobretudo o futuro e requalificação desta linha, a par do aspeto da salvaguarda do património móvel e imóvel nacional, que podendo parecer descabido, adquire todo um sentido por se enquadrar numa perspectiva conjuntural e de futuro, no que concerne à valorização dos territórios adjacentes às infraestruturas ferroviárias, inseridas nesses contextos.
 
O processo diacrónico permite efectuar uma leitura atenta deste segmento ferroviário, que na sequência do 1º centenário, e tendo em vista um futuro prospectivo, no âmbito das teses desenvolvidas, conduziu ao conceito de linha das Beiras, tão defendido e acarinhado pela referida associação.
 
E o que representa essa linha das Beiras?
 
O panorama ferroviário português, desenvolvido a partir da 2ª metade do séc. XIX, e por uma questão metódico-processual, e à medida que as linhas férreas foram emergindo, eram as mesmas classificadas em função do espaço geográfico em que se inseriam, tomando o nome das regiões ou rios.
 
Tais ditames processuais não se revelaram favoráveis ao investimento futuro de algumas dessas linhas, que em Portugal assumiu contornos extremos, determinando por isso o encerramento precipitado de algumas delas, sem todavia se ter estudado a possibilidade de reestruturação e/ou requalificação, no âmbito das respectivas regiões, nem antever o futuro.
 
Sem colocar de lado os anátemas que pairaram sobre esta linha da Beira Baixa, sobretudo nos anos 60, que quase ditaram o seu encerramento, não encontrou o 6 de Setembro eco na região, nomeadamente no que se referia à linha das Beiras! As mesmas teses defendidas por este grupo, caminharam sempre no sentido de encarar esta linha como um eixo estruturante, se fosse colocada de lado a taxonomia existente, entendendo-se as duas linhas como um todo, interligado e conjugado, cuja filosofia de exploração se baseava também nas potencialidades ao longo de décadas demonstradas, nas ligações diretas que a região da Beira Interior conheceu, no sentido de Coimbra ou Porto, subitamente eximidas, deixando esta exploração de todo entregue ao modo rodoviário.
 
Como reflexo desta atuação taxonómica, aquando das anteriores obras de requalificação da linha da Beira Alta, constituiu fator de indignação o modo como este investimento foi levado a cabo. Esta linha foi integralmente remodelada a eletrificada até Vilar Formoso, uma decisão incompreendida da qual se discordou, por se entender preferível fazer todo o sentido que a referida remodelação se fizesse no sentido Guarda Covilhã, quando já se sabia que mais tarde ou mais cedo a linha da B. Baixa seria eletrificada, fechando deste modo uma malha, e se apostou num troço sem continuidade do lado espanhol, como ainda hoje.
 
Mais uma vez o 6 de Setembro não colheu apoios necessários nesse sentido, e as consequências para esta linha, em face desse mutismo, foram desastrosas. A degradação do troço Covilhã - Guarda tornou-se inevitável. os prejuízos para a mobilidade de pessoas e bens incalculáveis, sem quaisquer perspectivas de futuro, como seria desejável.
 
A sincronia do presente, e tomando como mote os pressupostos governamentais no quadro de investimentos da Ferrovia 2020, “Projetar Portugal na Europa”, auguram um porvir carregado de esperança e ansiedade.
 
E porque o passado recorda exemplos não seguidos, importa reponderar o futuro sobretudo no âmbito da exploração comercial, tendentes a repensar os eixos de atuação, de modo a agilizar o futuro que se avizinha, finalmente entendido como linha das Beiras, no sentido de colocar esta Beira Interior, de uma vez por todas, em ligação direta a Coimbra e Porto, sem rupturas de tráfego.
 
Sendo certo que a linha da Beira Alta vai ser alvo de remodelações estruturais já anunciadas, que por certo vão ditar cortes de circulação ocasionais na mesma, a linha da B. Baixa pode assumir, nesse contexto, aliás já admitido pela própria tutela ministerial, um papel importante no descongestionamento e acessibilidade, pressupondo ligações que a partir de Mangualde ou outras, via Celorico e Guarda, ser direcionadas através desta mesma linha.
 
Eis como, a linha da Beira Baixa, se assume como um eixo estratégico, nacional e internacional, no panorama das acessibilidades ferroviárias, tendo em conta ainda, o fator Entroncamento, permitindo a partir daí, as ligações ao principal eixo ferroviário, no corredor norte sul.
 
E porque a memória se impõe, importa recordar Manuel Vaz Preto Geraldes, que defendeu até à exaustão, aquela que foi a linha do vale do Tejo, e que o processo histórico determinou como linha da Beira Baixa.
 
António Pinto Pires Membro fundador de O 6 de Setembro