No país rural dos tempos da monarquia e já em boa parte da era republicana, especialmente nas primeiras décadas do séc. XX, fruto dos salários de miséria e da quase escravatura então exercida sobre os seus trabalhadores assalariados, muitos senhores feudais das casas agrícolas deste “portugalex”, auto-intitulados de fidalgos foram prosperando a olhos vistos!
 
Salvo algumas honrosas excepções, nas suas frequentes festanças privadas, usando e abusando da criadagem apenas paga pela comida e alguma vestimenta, era visível a ostentação faustosa que nessas casas imperava, comportamento que punha a nu a sua incrível soberba, falta de humanismo e de solidariedade! Intitulavam-se, então, como nata fidalga para se distinguirem do clero e da plebe, embora muitos deles (os mais idosos) fossem pouco mais que analfabetos. Esta curiosa casta de cidadãos podia até valer muito pouco intelectualmente, mas tinha um umbigo do tamanho do mundo! Muitos deles pagavam aos professores para educar os seus filhos dentro das suas próprias casas, mas chegados à idade adulta (e alguns deles já formados) não os deixavam aceder ao mercado laboral, visto cultivarem a retrógrada ideia de que um fidalgo não nasceu para trabalhar!
 
E foi assim com esta absurda concepção de vida, que os seus agregados familiares cresceram desmesuradamente e a respectiva prole foi vivendo amesendada ao orçamento das paternas casas. É claro que o nefasto resultado destas erróneas opções não lhes tardou a bater à porta. Começou com o pronúncio da lusa-revolução industrial, avassalador movimento que teve o condão de desviar milhares de trabalhadores rurais para as novas fábricas citadinas, onde passariam então a auferir de melhores salários, melhores condições de vida e, por acréscimo, mais dignidade! As guerras coloniais dos anos sessenta acabariam por fazer o resto. O pessoal disponível para os seus vinhedos e campos cerealíferos foi escasseando... A pouca mão-de-obra sobrante passou também a ser mais exigente, a ter mais protecção social ditada por lei, e mesmo os respectivos salários foram subindo em flecha!
 
Nestas condições e com as respectivas casas cheias de filhos, genros e netos sem qualquer ocupação profissional rentável - (por culpa dos velhos fidalgos) -, para a maioria dessas casas agrícolas foi o tocar a finados! Mas, curiosamente, alguns desses velhos patriarcas não se conformaram com a nova realidade, e, por este ou aquele expediente, lá foram tentando manter os seus fiéis mordomos (ancestralmente chamados de “Baptistas” ou “Ambrósios”) -, pese embora estarem já em início de falência ou em completa ruína!
 
Esta situação então passada com os antigos fidalgos arruinados deste país à beira mar plantado tem muito de semelhante com o que agora se passa nos caminhos-de-ferro portugueses – vulgo C.P.! Diz-se por aí à boca cheia que esta empresa do Estado anda pelas ruas da amargura em termos financeiros. Está completamente falida! Tem um enorme passivo dificílimo de liquidar! No entanto, também ela pretende dar um ar de gente fina e rica! Primeiro, impulsionada pela sanha gastadora de Sócrates e João Cravinho, sonhou com a pretensão de ter uns quantos TGV’s. Mas, por incrível que pareça, e apesar dessa agonia financeira, os seus sucessivos medíocres administradores (gente por norma partidariamente encartonada) foram gastando dinheiro em diversas empreitadas fantasmagóricas, obras que acabariam por dar em nada, visto que TGV nem vê-lo! Passeiam-se ostensivamente montados em bombas de alta cilindrada e reservam para si o direito de auferirem salários e mordomias por vezes superiores às dos príncipes das arábias petrolíferas!
 
Por último, e tal como os ex-fidalgos de então, também esta empresa tem a pretensão de manter ao serviço uma espécie de mordomos “Baptistas” – homens também mal pagos mas, desta feita, bem-trajados de fato, gravata, gabardine ou sobretudo, e cujo papel é agora representado pela classe dos revisores! No entanto, uma coisa é certa: - Com a péssima gestão da C.P. e da REFER, quem invariavelmente mais sofre são os seus respectivos utentes, mormente os que necessitam de utilizar as malcuidadas linhas suburbanas. Para esse tipo de passageiros, reserva-lhes a C.P. umas espelúnquicas carruagens velhas do tipo terceiro-mundista e, no limite, dada a falta de higiene nelas verificada, ainda se arriscam muitas das vezes no fim da respectiva viagem a sair delas com uma boa camada de pulgas!
 
Alfredo Martins Guedes
22.09.2018