Ex.mo sr. Almirante António Manuel da Silva Ribeiro
 
 
 
Dei cerca de seis dos meus melhores e mais pujantes anos da minha vida à Pátria, servindo a Marinha, no ramo dos Fuzileiros. Na Escola de Vale-de-Zebro a chamada (Forja-dos-Bravos), tive a subida honra de privar com instrutores de alto gabarito Militar e inabalável honestidade pessoal. Gente com as qualidades técnicas e humanas como o sub-tenente Salles Grade, os então primeiros-tenentes Rui Santos Patrício, Brito e Abreu, Coelho Metzller, Homem de Gouveia, etc. Os capitães-tenentes Maxfredo Costa Campos, Melo Cristina, e muitos outros, aqui e agora lhe afirmo, Sr. Almirante, todos eles me marcaram indelével e positivamente, e me deram “ferramentas” para desbravar e sanear as ardilosas curvas dos caminhos que, por vezes, temos de percorrer, para chegarmos à meta que nos propomos atingir.
 
Desses seis anos que dei à Pátria (a cujas obrigações alguns dos chamados VIP’s deste País fugiram), a segunda metade deles foram passados em Angola, no período da Guerra Colonial. Aí, robusteceu-se ainda mais o meu sentido patriótico, pois voltei a encontrar e a trabalhar com pessoas de elevado valor humano e profissional, como foi o caso de dois capitães-tenentes-médicos (António Cabral de Abreu e Luís Santa Bárbara), bem como dois Almirantes (Morgado Belo e Carlos Sanches).
 
Mas, em minha modesta opinião, a chamada cereja-no-topo-do-bolo da Marinha (leia-se Fuzileiros), das últimas quatro décadas foi, sem dúvida, aquele heroico feito levado a cabo na Guiné, por Alpoim Calvão, saudoso e prestigiado comandante fuzileiro, transmontano natural de Chaves; corajoso homem que concebeu e comandou a famosa “Operação Mar Verde”, e cujo objectivo foi entrar pela Guiné-Conacri, para de lá libertar centena e meia de militares portugueses, aprisionados às ordens do PAIGC – Movimento Independentista da Guiné-Bissau e Cabo Verde! Não andarei longe da verdade se disser que se o Comandante Guilherme Almor Alpoim Calvão tivesse andado a “gritar” aos 4 ventos que era homem de esquerda, teria hoje, por certo, uma estátua em cada cidade do nosso País!
 
Como pode ver, Sr. Almirante, provém V. Ex.ª de um “Ninho-Paterno” de impolutos cidadãos de grande moral cívica e humana, a que talvez Camões também apelidasse de “Altos Infantes”! Essa união e camaradagem está bem patente em dois correntes slogans usados para “consumo” interno: A Armada sempre foi carinhosamente apelidada de (A Briosa); e entre os seus pares era e penso que ainda será também usado o termo (Filhos-da-Escola”!
 
Depois deste já longo introito, certamente não deixará V. Ex.ª de se perguntar: “Mas a que propósito vem esta carta”? Eu explico, Sr. Almirante: Como bem sabe V. Ex.ª, A Armada tem por Divisa uma respeitada e honorável legenda, que diz: “A Pátria Honrai, que a Pátria vos contempla”! É precisamente aqui que bate o ponto da minha carta. Como se sabe, foi há uns tempos nomeado o Sr. General Martins Pereira como adjunto de V. Ex.ª no CEMGFA – Chefia do Estado-Maior-General das Forças Armadas. É sabido que, além de outros militares de alta patente, esta personalidade tem igualmente gerado algumas dúvidas e controvérsias públicas, a respeito do misterioso (diremos mesmo até escandaloso) - caso de Tancos! O seu nome tem também sido referido pelos jornais, que até já falam abertamente que terá de prestar contas à Justiça! O facto de anteriormente ter sido o secretário do ex-ministro da Defesa julgo ser o fulcro da questão agora publicamente levantada, e na qual é (directa ou indirectamente) interventor.
 
Ora, a Divisa da Marinha (A Pátria Honrai que a Pátria vos contempla) creio que não pretende literalmente dizer que tão sagrada regra se aplique apenas e só às gentes da Armada, mas a todos os cidadãos Nacionais, em geral. Por isso, perante as dúvidas e “nuvens” menos claras que publicamente circulam a respeito daquele Sr. General, em funções de adjunto no CEMGFA, permita-me que lhe faça a seguinte pergunta: Será que V. Ex.ª se sente confortável com esta situação agora despoletada sobre o embaraçoso caso de Tancos? Também, por certo, não deixará de pairar no ar entre os nossos concidadãos, a grande dúvida sobre quem teria contemplado o Sr. General Martins Pereira com o lugar que então lhe foi conferido.
 
Esta meteórica promoção a Ten-General também não tem passado despercebida a muito boa gente. Teria sido por heroicos ou excepcionais feitos à Pátria? Se assim foi, nada a acrescentar.
 
Creia-me, Sr. Almirante, que não venho para aqui em bicos-de-pés pretender dar lições de moral e ética a ninguém, muito menos a V. Ex.ª que não conheço, mas muito respeito, dadas nomeadamente, as altas funções que exerce. Também não pretendo fazer aqui qualquer juízo de valor a respeito do Sr. General Martins Pereira, visto que todo o cidadão tem direito à presunção de inocência até prova em contrário sobre os respectivos actos que pratica. Mas, dado estarmos perante um melindroso caso de altas funções do Estado, e que pode abalar a credibilidade interna e externa das FA’s, sempre lhe direi, Sr. Almirante: - Se estivesse no lugar de V. Ex.ª, a minha decisão irrevogável acerca desta nomeação seria a seguinte: “Demita-se, ou demitam o Sr. General Martins Pereira. Caso contrário, demito-me eu próprio”!
 
“A PÁTRIA HONRAI, QUE A PÁTRIA VOS CONTEMPLA”
 
Alfredo Martins Guedes Outubro - 2018