Escreveu a jornalista há 31 anos atrás (1) que «Constância, rezam as lendas, terá servido de inspiração a Camões, para a criação da mitológica Ilha dos Amores, que o poeta situou no Oceano Índico». Onde foi a senhora descobrir esta ideia? Não sabemos. Mas podemos tentar obter uma explicação….
 
Na sua monografia o padre Veríssimo escreve sobre a fazenda do vale escuro (Zêzere) a qual descreve e, a propósito, cita versos do próprio Camões. Eis a descrição do padre que contém mais á frente a citação camoniana: «uma fontinha que recorda fúnebres ideias; um campo sombrio pela escarpada eminência de dois grandes outeiros quási perpendiculares; emaranhado e denso arvoredo copado sobre as faldas dos dois montes, onde as luzes do astro brilhante do dia jamais penetram; o canto de patéticas aves que apenas se ouvem piar (a que se pode aplicar o que diz Camões); o murmúrio do Zêzere, que aqui passa encanado pela mais apertada garganta; um verde tapete de fresca relva.
 
 
Pois a tapeçaria bela e fina/Com que se cobre o rústico terreno/Faz ser a de Alchimenia menos digna/Mas o sombrio vale o mais ameno. Camões, CIX Es. (XL)»
 
O autor cita duplamente Camões, quer nominalmente quer reproduzindo os versos do vate.
 
 
Os mais cépticos poderão ler seja nas palavras da jornalista seja na passagem do cronista de Punhete (actualmente Constância), apenas conjecturas de circunstância que ilustram os textos, mas arreadas da verdade histórica… Para o desconcerto das opiniões mais pessimistas, permitam-me recorrer à tese do erudito António Cirurgião o qual conheci pessoalmente há muitos anos na Galeria de Constância e que, sabedor do meu interesse pelo assunto, me deu fortes dicas e pistas de «investigação».
 
António Cirurgião defende que Camões será , nem mais nem menos , a personagem «Urbano» da obra «Lusitânia Transformada», cujo cenário central de acção é precisamente a zona entre a foz do Nabão e a foz do Zêzere, intermitência territorial onde se situa… o vale escuro; «A primeira vez que deparamos com Urbano, na Lusitânia Transformada, de Fernão Álvares do Oriente, é na prosa n do livro primeiro. O narrador apresenta-no-lo como sendo do Tejo e como desterrado: ‘Viera Urbano com parte de seu rebanho da rybeira do Tejo, pátria sua, desterrado à seu pezar, & com o sentimento desta ausência jazia tão esquecido de si, como de seu gado(…)´». (3)
 
Não é exacta a data da morte de Fernão Álvares do Oriente. Aceita-se que possa ter ocorrido entre 1600 e 1607.porquanto aquando da edição da sua obra em 1607 por Domingos Fernandes este declarava que o autor já tinha morrido.
 
A «Lusitânia Transformada» é uma novela em prosa e verso,profundamente simbólica, através da qual Fernão Álvaresdo Oriente critica «o espírito marcadamente mercantilista dos que se esquecem das graves consequências daí advindas parao país, fazendo lembrar o episódio do "Velho do Restelo" de Os Lusíadas».(4)
 
Urbano, associado à cidade (urbe), simbolizará o cortesão, qual pastor. Vítor Aguiar e Silva, insuspeito, regista a hipótese defendida pelo professor Doutor António Amaro Cirurgião de se considerar como berço de Fernão Álvares do Oriente a vila de Punhete actualmente Constância. (5)
 
Um Fernão d'Álvares, filho de Pantaleão Rosado, natural de Punhete, matriculou-se na Universidade de Coimbra em 1573, recebeu o grau de bacharel em 1578 e a formatura em 1580. (6)
 
Foi com uma grande alegria no coração que, visitando a exposição itinerante de comemoração dos 500 anos dos descobrimentos portugueses (creio que em Tomar), li um texto de Vasco Graça Moura (um dos ideólogos da exposição integrada na Expo 98 - exposição mundial), onde se reproduzia uma passagem da obra de Fernão Álvares do Oriente publicada apenas cerca de 20-25 sobre a morte de Camões, reputando-se para Constância o lugar de desterro do poeta, tal como fundamentado por António Cirurgião autor citado por VGM.
 
Não é verdade que a hipótese do desterro de Camões em Constância tenha sido inventada pelo Visconde de Juromenha o qual, segundo os detractores da tradição de Constância, teria conjecturado apenas. Conjecturou, sim, não sem fundamento.:
 
Em 1855 e fazendo a inspecção do lugar do desterro o autor desceu o Tejo num Albringel, vindo de Alvega e desembarcou em Constância, tendo subido ao outeiro da Conceição na confluência:
 
«N’esta povoação, então logar do termo de Abrantes, e a que El-Rei D.Sebastião fez villa, parece ter sido o logar do seu desterro por uma certa analogia de descrição que se nota em algumas das suas poesias, principalmente se é sua a canção XII, e pela tradição que me dizem, que ali existe. ( o sublinhado é meu, anoto) Na elegia III, escripta neste sítio, se compara a Ovídio, que com a sua musa mitigava o exílio em terra estranha». (7) e (8).
 
Quem foi que disse que o Visconde inventou a tradição de Constância?...
 
Post Scriptum – Foi com alguma tristeza que ontem assisti num café em Constância, mormente, a comentários de um grupo de estrangeiros sobre uma gravura de Camões exposta numa das paredes do estabelecimento comercial. Não sabiam de quem se tratava de uma maneira geral. Um dos turistas citou Fernando Pessoa como o poeta/escritor maior da nossa língua… Foi aí que intervim, discordando. Uma turista disse mesmo que para ela nem Camões, nem pessoa. «Não gosta». Momentos antes denunciava não saber quem seria Camões. As expressões faciais não mentem…. À tarde participei na assembleia geral da Associação Casa-Memória de Camões em Constância e à noite fui reler umas cartas pessoais que me dirigia não raro, a saudosa jornalista Manuela de Azevedo, grande camonista e a quem devo a paixão pela termática. De seguida dei comigo a escrever…
 
 
Legenda da foto:
«Uma aparição de Cristo à Virgem», por Fernão Gomes. O autor deste painel é o mesmo Fernão Gomes que conheceu Camões e o imortalizou na sua vera-efígie. Especulam os cultores de Camões quem será a personagem à direita em baixo, que espreita para fora do quadro de Fernão Gomes ? Alguns aventam ser o próprio Camões. Certo é que o quadro provém de Constância da Quinta de Santa Bárbara, admitindo-se que no início do século XVIII já por lá estaria. Foi vendido recentemente segundo um anúncio de um antiquário, pasme-se….
 
 
José Luz
 
(1)«O Diário» , edição de 06/04/88, reportagem de Paula Sanchez
(2) «Descripção da Villa de Punhete», por Veríssimo José de Oliveira, 1830, Transcrição, prefácio e notas complementares por José Eugénio de Campos Godinho, 1947
(3)«Será Camões a personagem Urbano de Lusitânia transformada?», António Cirurgião, 1972.
(4) Infopédia
(5) Dicionário de Luís de Camões, Vitor Aguiar e Silva, Caminho, 2011
(6) «Fernão Álvares do oriente, O homem e a obra», António Cirurugião, Centro Cultural de Paris, 1976.
(7)Após a sua visita na Primavera de 1855 que havia feito a um primo e íntimo amigo João António de Azevedo Coutinho e sua mulher D. Helena Antónia Caldeira de Mendonça, em Alvega.
(8) «Obras de Luís de Camões, Visconde de Juromenha, volume 1, 1860, Imprensa Nacional, páginas 41 e 493.