e ainda o que une esta vila… à Catalunha
 
Aproxima-se o dia 7 de Dezembro data em que se comemora a elevação da vila de Constância à preeminência de "NOTÁVEL". Rezam as crónicas que os habitantes da então vila de Punhete realizaram «nobre e heróico feito», «glorioso», sob comando do oficial "o Hespanhol'' . Segundo o decreto régio de 07/12/1836 os habitantes de Punhete «foram os primeiros que espontaneamente alçaram o generoso grito da Acclamação dos meus direitos, e da publicas Liberdades na villa de Thomar em o dia 25 de Junho de 1833, a despeito mesmo de numerosas bayonetas liberticidas, que longe de os fazer desmaiar, mais estimulavam o zelo verdadeiramente patriótico(…)».
 
Mas quem foi Dom Manoel Martinini o «Hespanhol»? É uma figura militar de relevo. Comandou o levantamento de uma guerrilha constitucional. A força de guerrilha sob o comando de Manoel Martinini terá atingido cerca de 1500 homens, segundo «The Spectator», volume 6, F.C. Westley, 1833. A rainha fê-lo subir a coronel para a canalização do rio Tejo. (Portaria de 24 de Dezembro de 1836).Morou na quinta do Seival e ainda na rua contígua ao actual «palácio» em Constância (o que se pode aferir através dos cadernos eleitorais da época e de um boletim do vizinho município tomarense).
 
As crónicas registam ainda um Dom Manoel Martini que armava quadrilhas, uma delas na Barquinha, com requintes sanguinários quanto aos métodos de actuação revolucionários (Gazeta de Lisboa, 20 de Julho de 1833 da qual tomei conhecimento através do blogue «Por Abrantes»).
 
O nome da vila e de outras localidades designadas "Punhete" foi mudado nessa ocasião dada a intervenção de PASSOS MANOEL que foi ministro e habitou em Constância no palacete onde existe actualmente a Casa Museu Vasco de Lima Couto.
 
A história local diverge da versão oficiosa, quanto à questão concreta da escolha do nome «Constância». Segundo uma monografia elaborada nos anos 60 por alunos da escola primária, sob a orientação das professoras, entre as quais a D. Lurdes Tavares (com quem confirmei este facto), a escolha do nome «Constância» dever-se-á à constância dos amores entre Passos e Gervásia Falcão, por um ser liberal e a família dela miguelista. E não é sem fundamento esta versão romântica pois saiu impressa nos anos 50 num periódico lisboeta e dela nos dá conta o conceituado cronista Joaquim Coimbra na sua monografia por publicar (Joaquim Coimbra recebeu elogios de Dr José Hermano Saraiva e era respeitado pela antiga conservadora do arquivo nacional da torre do tombo, Doutora Maria Clara Pereira da Costa). O velinha regente escolar D. Emília Soares, pianista, terá transmitido esta história nos anos 20 ao cronista Joaquim Coimbra.
 
O governo de Passos Manoel terá revelado uma propensão natural para concessões destas, toponímicas, qual expressão de fidelidade aos valores liberais que saíram vitoriosos à época (com interesse, «A heráldica em Portugal no século XIX: sob o signo da renovação», Miguel Seixas, ICS). Esta mesma fonte diz-nos que a vila recebeu então «um escudo partido: no primeiro campo figuravam as armas reais; no segundo, de prata, uma bandeira partida de azul e de prata, brocante uma banda de vermelho carregada com a legenda a rainha e a carta em letras de ouro; bordadura de azul carregada da legenda constante firme e leal só constância soube ser em letras de ouro; o escudo era encimado pela coroa real fechada, envolto pela fita e insígnia da Ordem da Torre e Espada, e ladeado por dois ramos de loureiro de verde passados em aspa. »
Parece-me que nada autoriza a conclusão, sem mais, de que a escolha do nome «Constância» está justificada no decreto oficial. Não está. Há que distinguir entre o título de «Notável» e o nome escolhido. Em favor da versão local e romântica abona a circunstância do decreto estar assinado pelo próprio…. Passos Manoel, ele sim objecto pessoal da controvérsia romântica. Nem mais.
 
Constância e Catalunha?
 
A documentação escrita sobre o período da nacionalidade regista inúmeros exemplos de importação de topónimos, de lugares homónimos que pertenciam a milícias internacionais. Punhete, lembra o local de um mosteiro templário na Catalunha, «Punyalet» é o caso trazido à tona na obra monumental "Castelos Templários" em Portugal, de Nuno Villamariz Oliveira, da Ésquilo, pág 229, obra de dissertação apoiada pela Comissão Portuguesa de História Militar. O topónimo «Punyalet» aparece, segundo este autor, em "L' Arquitectura dels Templers a Catalunha", de Fuguet, S, J, Universidade de Barcelona, departamento de história de arte, 1989.
 
Sendo uma hipótese académica sobre a origem do nome do povoado de Punhete não pode ser ignorada pois assenta numa investigação séria, com leis próprias desta ciência. É mais do que uma lenda ou uma pura especulação.
 
José Luz (Constância)